A nova síntese do comunismo e os resíduos do passado

Organização Comunista Revolucionária, México

O mundo pode erguer-se numa nova base. A nova síntese do comunismo de Bob Avakian brinda-nos com um novo e essencial guia teórico para as revoluções do século XXI que poderão vir a pôr fim à miséria, opressão e degradação de que sofrem a maioria das pessoas e abrir caminho a avanços sem precedentes rumo ao mundo comunista: uma livre associação de seres humanos sem divisões de classe, nação, género nem entre trabalho manual e intelectual, em que os seres humanos transformem o mundo e a si mesmos com base numa compreensão mais profunda e científica da realidade. Nestes dias em que se ouve em todo o lado a pregação dos eruditos merolicos das classes dominantes de que o comunismo «fracassou», que foi «horrendo» e que não nos resta mais futuro que o que nos oferece este horroroso sistema capitalista-imperialista, a nova síntese representa uma renovada esperança de emancipação para as massas em todo o mundo.
Esta nova síntese convida e promove a crítica, a dissensão e o debate, e chama a todos a entrarem a enfrentarem os muitos problemas ainda por resolver da nova etapa da revolução proletária mundial. Contudo, ela tem tido que enfrentar em muitos casos, não uma crítica reflectida do seu conteúdo que, quer seja correcta ou incorrecta, sempre contribui para o processo de esclarecer as questões, mas antes uma enxurrada de insultos, mentiras e ataques pessoais provenientes, em primeira linha, de algumas organizações que se autodenominam «comunistas» e «marxistas-leninistas-maoistas». Bem dizia Mao que no início nada do que foi proposto foi aplaudido, mas antes coberto de desdém. Face aos grandes problemas de saber como enterrar este sistema apodrecido e de criar um mundo novo, a luta comunista tem sempre avançado através da luta entre ideias e posições opostas: os novos avanços abrem brechas, seja em oposição a posições dogmaticamente aferradas ao passado, seja contra posições que rejeitam o núcleo científico e revolucionário do comunismo em nome de «novas condições». Compreendendo isto, tal como dizia Engels, não vamos sentir muita pena por ter eclodido a inevitável luta. Ao desenvolvermos e levarmos até ao fim a luta entre as duas linhas que se tem vindo a desenvolver no movimento comunista internacional, poderemos aprofundar ainda mais a compreensão do que corresponde ao mundo real e do que não, do que contribui para a emancipação e do que não e poderemos unir e forjar novos iniciadores de uma nova etapa da revolução comunista mundial.
Estamos aqui a centrarmo-nos em quatro, entre outras, questões importantes da actual luta, examinando as posições da nova síntese e as dos seus detractores, quanto a: 1. A transição socialista para o comunismo; 2. O Estado e a luta armada; 3. A organização comunista internacional e o internacionalismo; e 4. O método científico do comunismo em contraste com o pragmatismo e o instrumentalismo. Abordamos os argumentos que alguns críticos têm desenvolvido em relação à nova síntese. Quanto aos insultos, ataques pessoais e mexeriquices de quem supostamente fez o quê a quem, para quem tem em vista a emancipação da humanidade e não mesquinhos interesses de grupo, basta observar que esses métodos de «luta» não têm nada a ver com o comunismo científico.

1.    É necessário fazer agora um balanço científico da experiência do socialismo e uma concepção de como esta vai avançar mais e melhor?

É necessário fazer agora um balanço científico da experiência do socialismo e uma concepção de como avançar mais e melhor agora na revolução comunista? Sim. É necessário, entre outras razoes, porque o socialismo que existiu na Rússia e na China foi derrotado e já não há países socialistas no mundo, porque as classes dominantes se aproveitaram destes reveses para propagarem amplamente a ideia de que o socialismo não funcionou, porque é essencial aprender como o que foi correcto e errado na experiência histórica do socialismo e do movimento comunista internacional em geral para que não se repitam velhos erros e para se poder avançar mais e melhor que mesmo o melhor do passado e porque nas últimas décadas houve importantes mudanças no mundo que requerem ser analisadas para poderem guiar correctamente a revolução comunista de hoje. É a esta necessidade de fazer um balanço científico das lições positivas e negativas da experiência anterior do movimento comunista e das sociedades socialistas, de analisar as novas condições no mundo actual, e de aprender com outros campos, que Bob Avakian dedicou mais de 30 anos de trabalho intenso. Isto resultou na nova síntese, a qual incluí, entre muitos outros elementos, uma compreensão mais profunda do objectivo comunista e do que isso implica para que o socialismo seja, efectivamente, tanto uma transição para o comunismo mundial como sociedade em que a grande maioria de nós queira viver.
Contudo, esta necessidade de um balanço da experiência anterior e de um novo desenvolvimento da teoria comunista para que ressurja e avance a revolução comunista hoje não é vista por algumas pessoas que se declaram comunistas mas que estão cegos por um método pouco marxista e pouco científico. Não são poucos os que pensam que se pode o se deve evitar a questão do socialismo e do comunismo, que isso «é para depois» e que os «êxitos práticos» do movimento na mobilização das massas em guerras populares ou outras lutas irão resolver estes problemas. Como se resume em Comunismo: O Início de uma Nova Etapa, Um Manifesto do Partido Comunista Revolucionário, EUA, documento chave na actual luta no movimento comunista internacional, na forte divergência com a nova síntese existem «duas tendências opostas – seja a de teimarem religiosamente em todas as experiências anteriores e na teoria e no método a ela associados, seja a de (em essência, se não mesmo em palavras) se atirar tudo isso fora», ou seja, a de abandonar também os aspectos principalmente positivos da experiência anterior e abraçar a democracia burguesa .
Embora todas as analogias tenham as suas limitações, é como se construíssemos um grande e impressionante edifício – o socialismo – com muitas inovações e avanços extraordinários, bem como alguns defeitos secundários mas importantes, e depois, como resultado de um grande terramoto, toda a estrutura se desmoronasse. Perante este grande revés, os dogmáticos dizem-nos: «construamo-lo de novo como estava, não se passou nada». Os admiradores da democracia do actual sistema capitalista dizem-nos: «esqueçam, a estrutura não serve», sem nos deixarem outra alternativa a não ser viver a intempérie do actual sistema de opressão. Em vez disso, a nova síntese aplica um método científico: vamos aprender com as lições positivas e negativas dessa experiência, aprender também com outras fontes, e conceber e pormo-nos a construir um novo edifício que seja mais resistente aos desastres e que sirva melhor os fins da revolução comunista.

2.    A derrota das primeiras experiências do socialismo marca ou não o fim da primeira etapa da revolução comunista?

Em dois artigos, o Partido Comunista (Maoista) do Afeganistão [PC(M)A]  argumenta essencialmente que a revolução comunista até agora não se divide em duas etapas, que não faz falta fazer agora um desenvolvimento qualitativo da ciência do comunismo e que a nova síntese de Bob Avakian é uma «ruptura» com o Marxismo-Leninismo-Maoismo (MLM), é uma ideologia «pós-MLM» e portanto é errada.
O reconhecimento ou não de que a restauração do capitalismo na China desde 1976, após a restauração anterior na União Soviética (1956), marca o fim de uma primeira vaga da revolução comunista mundial que começou com a primeira Internacional e terminou numa situação em que já não há nem países socialistas nem internacional comunista, está intimamente relacionada com o reconhecimento ou não de que estes acontecimentos exigem dos comunistas um balanço científico da experiência histórica da ditadura do proletariado e do movimento comunista em geral a fim de se poder avançar mais e melhor nesta nova etapa.
O argumento do PC(M)A na sua primeira carta é que «O único critério que se dá a esta divisão [em duas etapas] é a nova síntese de Bob Avakian e o seu resultado, a publicação do novo Manifesto do PCR». Isto simplesmente não é verdade. Os dois documentos que o PC(M)A está a comentar (o Manifesto do PCR, EUA acima citado e a Constituição do PCR,EUA) exprimem claramente que «Com o fim do socialismo na China depois de 1976, duas décadas depois do que tinha acontecido na União Soviética nos anos 1950, chegou ao fim a primeira vaga das revoluções socialistas e hoje o mundo não tem estados socialistas» . Em vez de criticar a verdadeira posição do PCR,EUA, inventam um argumento falso e absurdo, um método que, ao contrário do método científico e crítico do comunismo, não contribui para clarificar os argumentos e chegar à verdade.
De seguida, afirmam que «Esta divisão em duas etapas não é compatível com as diversas fases da evolução do capitalismo» nem «com as diversas fases da evolução da ciência e da ideologia do proletariado revolucionário». Isto não vem a propósito, já que não se está a falar da evolução do capitalismo nem do Marxismo, mas sim do desenvolvimento da revolução comunista mundial, a qual, se bem que esteja inter-relacionada com a evolução do capitalismo e da ideologia comunista, é um processo distinto com as suas próprias particularidades. De facto, quando o camarada Avakian primeiro falou no «fim de uma etapa» e no início de outra na revolução comunista, salientou especificamente que não estava a falar de etapas no desenvolvimento do capitalismo nem da ciência do comunismo . O PC(M)A não distingue a especificidade destes processos distintos. É ou não verdade que a já mencionada derrota temporária do socialismo constituiu uma mudança qualitativa profunda no processo da revolução comunista que separa uma etapa nesse processo de outra? O PC(M)A evita esta questão em vez de lhe responder.
No segundo documento do PC(M)A persiste a mesma confusão entre evolução do capitalismo, ideologia comunista e processo da revolução comunista, acrescentando que não foi uma primeira vaga mas sim várias vagas da revolução comunista até agora, que esta(s) vaga(s) de revoluções proletárias não terminou(aram) porque «Apesar das grandes mudanças que ocorreram, a ordem socioeconómica [i.e., a ordem capitalista] ainda está intacta» e porque «Mesmo que as vagas da revolução proletária desde o tempo de Marx até à derrota da revolução na China tenham diminuído, ainda não terminaram completamente» , e continua dando exemplos de lutas revolucionárias desde esse tempo.
Neste segundo documento, pelo menos o PC(M)A começa a reconhecer que se está a falar de vagas (ou etapas) da revolução proletária (ou comunista), reconhecendo implicitamente e sem autocrítica que o seu primeiro artigo falseou a posição de Avakian. Contudo, continua a evitar a questão de se saber se a restauração do capitalismo nos países que antes eram socialistas constitui ou não uma mudança qualitativa na revolução comunista que marca o fim de uma etapa.
Por um lado falam-nos de uma multiplicidade de vagas, aparentemente identificadas com a Comuna de Paris, a Revolução de Outubro, a Revolução Chinesa e a Revolução Cultural. É verdade que estas quatro revoluções marcam pontos altos da revolução comunista mundial. E se as derrotas das primeiras experiências socialistas tivessem sido seguidas de novas vitórias de estabelecimento ou restabelecimento da ditadura do proletariado, essas derrotas talvez não tivessem marcado o fim da primeira etapa. Isto não foi «predeterminado», foi influenciado por muitos factores da luta de classes e do desenvolvimento do sistema imperialista mundial, mas na realidade o que aconteceu foi um período de mais de três décadas em que não houve países socialistas nem internacional comunista. Falar de vitórias anteriores não responde à questão de saber se este grande revés representa ou não o fim de uma etapa (e se reflecte, entre outras coisas, uma relutância pouco materialista e pouco dialéctica de falar em reveses).
Por outro lado, dizem que se desenvolveram guerras populares durante vários anos, primeiro no Peru e depois no Nepal e que continua a haver lutas armadas na Índia e nas Filipinas, pelo que «onde diabo se vê o fim completo de uma vaga da revolução proletária?»  Mas ninguém está a dizer que acabaram todas as lutas revolucionárias: a questão em debate, uma vez mais, é saber se a restauração do capitalismo nos países que antes eram socialistas representa uma mudança qualitativa que marca o fim de uma etapa da revolução comunista mundial. Ao dizer que as lutas revolucionárias não acabaram e que a ordem capitalista se mantém intacta, argumentam essencialmente que a revolução proletária prossegue se mantém. Confundem o fim da sua primeira etapa com o fim da revolução comunista em si! Nós, os apoiantes da nova síntese, consideramos que a revolução proletária continua mais necessária que nunca e que constituí a única esperança dos oprimidos e, no fim de contas, da humanidade em geral, mas que para que esta esperança se concretize, é essencial reconhecermos as implicações da mudança qualitativa que ocorreu com a derrota do socialismo e a restauração do capitalismo na União Soviética e na China e fazermos um balanço científico das lições da primeira etapa da revolução comunista, bem como das mudanças no mundo desde então para podermos conseguir novos avanços na teoria e na prática comunista e forjarmos a vanguarda das revoluções do futuro, em vez de ficarmos como um resíduo do passado.
Ainda que não respondam directamente à questão em debate, fica claro que o PC(M)A nega que a restauração do capitalismo nos países que antes eram socialistas constitui uma mudança qualitativa no processo mundial da revolução comunista e que marca uma nova etapa na mesma. Pelo que só nos resta observar que não há pior cego que aquele que não quer ver. Ainda que o PC(M)A reconheça formalmente que houve uma restauração do capitalismo nos países que antes eram socialistas, retira importância a esta mudança profunda e qualitativa no processo da revolução comunista mundial. O método que eles aplicam para chegarem a esta conclusão é um método dogmático que não distingue a especificidade da contradição ao confundir o processo da revolução comunista mundial com outros processos relacionados mas distintos e ao não analisar claramente as etapas deste processo, confundindo o fim de uma etapa com o fim do processo em si. Na realidade, as mudanças qualitativas devidas à intensificação ou atenuação temporária de algumas das contradições num processo complexo, ou ao desaparecimento de umas e/ou ao aparecimento de outras novas, tendem a marcar etapas nele mesmo – neste caso, o desaparecimento temporário da contradição entre o sistema socialista e o sistema imperialista com a restauração do capitalismo nos países socialistas, a crise no movimento comunista internacional, com ela relacionada, e outras mudanças marcam o fim de uma etapa da revolução comunista mundial – e «Não é possível resolver correctamente as contradições inerentes a um fenómeno se não se presta atenção às etapas do processo do seu desenvolvimento.» .

3.    São necessários avanços qualitativos na ciência comunista para se liderar uma nova etapa da revolução proletária ou é suficiente o quadro teórico anterior?

A importância de reconhecer o fim de uma etapa e o início de outra na revolução comunista deriva de isso ser um facto material, mesmo que não nos agrade, e requer novos avanços na ciência comunista como base para reformular e reconfigurar as experiências positivas do passado, aprender com as negativas, analisar as novas condições e aprender com outras fontes a fim de desenvolver uma compreensão capaz de guiar correctamente as revoluções comunistas do futuro. É isto que tem vindo a fazer Bob Avakian, ao desenvolver a nova síntese, e tem dado alento a outros a fazê-lo também; a necessidade de fazer isto é precisamente o que negam o PC(M)A e outras tendências dogmáticas no actual movimento comunista internacional.
Ainda que o PC(M)A reconheça como principio geral abstracto a necessidade de desenvolver a ciência do comunismo, é de opinião que «uma correcta compreensão básica do Marxismo-Leninismo-Maoismo é a fundação e a base de confiança para a revolução comunista» , que mais importante que fazer o balanço da experiência do socialismo é fazer o balanço, em primeiro lugar, da experiência do reagrupamento de partidos maoistas no Movimento Revolucionário Internacionalista (MRI) , e com «Base nesse balanço, podemos – e devemos – rever a revolução chinesa e Mao Tsé-tung, e desta vez não na perspectiva de estabelecer o Maoismo internacional prestando atenção apenas aos seus aspectos positivos – um nível pelo qual já passámos – mas de uma perspectiva crítica para se ver os erros, insuficiências e possíveis erros da revolução chinesa e do próprio Mao Tsé-tung. Isto é um trabalho que nunca antes foi feito a nível internacional (…)» [ênfase nossa]. Depois dizem que o mesmo pode ser feito com os tempos de Lenine, Marx e Engels, «apoiando-nos no actual quadro teórico sem afirmar que ele é completo» .
É pouco menos que incrível que após 30 años de trabalho e da publicação de literalmente dezenas de livros, folhetos e discursos da parte de Bob Avakian, em que realiza precisamente uma análise crítica de toda esta experiência, se diga que «Isto é um trabalho que nunca antes foi feito a nível internacional». Se há desacordo com o conteúdo desse balanço – e é evidente que há – gostaríamos de ouvir os argumentos em relação a isso mas, por favor, não tentem fingir que esse trabalho não existe! Ou será que pensam que não foi feito a «nível internacional» porque eles e forças similares não participaram no estudo e no debate deste trabalho por o considerarem de pouca importância? Isso foi uma decisão errada deles próprios, apesar dos repetidos apelos a que comentassem estas e outras questões. A importância e a veracidade de novos avanços na ciência do comunismo não dependem essencialmente de quem participou ou não na sua elaboração, mas sim de corresponderem ou não à realidade objectiva e ao avanço rumo ao comunismo.
É evidente que para o PC(M)A um balanço crítico da experiência da primeira etapa da revolução comunista em geral e da experiência da ditadura do proletariado em particular não é uma tarefa urgente, e pode ser adiada até um futuro indeterminado, depois de se fazer o balanço da experiência do MRI, e que, entretanto, basta o «actual» quadro teórico, ou seja, o quadro teórico de há quase 40 anos, ou uma compreensão falseada e errada do mesmo. (Sem dúvida que também é importante fazer o balanço da experiência do MRI. Como veremos adiante, as divergências de linha relacionadas com as que aqui comentamos tornaram impossível ao MRI defender de uma forma unida os princípios comunistas perante a luta entre as duas linhas no Partido Comunista do Peru, bem como a adopção de uma linha revisionista pelo Partido Comunista do Nepal (Maoista) em 2005. Mas como é que isto justificou que durante décadas não se tivesse feito um balanço crítico da experiência anterior da revolução comunista e que se tornasse impossível ignorar e por fim tentar desacreditar quem de facto o fez? Como é que se justifica a insistência em persistir no mesmo erro?)
O PC(M)A condena a nova síntese como «pós-MLM», com o que quer exprimir que na sua opinião a nova síntese é uma «ruptura» com a ciência desenvolvida por Marx, Lenine e Mao e um repudio das suas contribuições como sendo «parte de um passado que não é relevante» . Vemos uma vez mais o método do PC(M)A de imputar um argumento absurdo ao seu rival e depois «refutá-lo», em vez de criticar a verdadeira análise e sobretudo os melhores argumentos que foram feitos para a defender.
Para o PC(M)A, a «relevância» do passado é uma questão de repeti-lo acriticamente, já que por admissão própria, acima citada, «já passámos» por «um nível» de «prestar atenção apenas aos seus aspectos positivos» e a tarefa de o abordar «de uma perspectiva crítica» fica como tarefa para algum momento indeterminado no futuro, e isto é, para eles, o «actual quadro teórico» que nos deve bastar agora e durante mais um tempo indeterminado. Isto não é um quadro teórico marxista-leninista-maoista, mas sim um quadro dogmático criado pelo PC(M)A e por outros que abandonaram o espírito crítico do Marxismo, argumentando que por agora basta repetir algumas  formulações teóricas de há 40 anos sem uma reanálise crítica.
É evidentemente por apreciar a profunda «relevância» da primeira etapa da revolução comunista e o «rico caudal de teoria científica revolucionária que se desenvolveu durante a primeira vaga de revoluções socialistas»  que Bob Avakian não se contentou em repetir algumas frases do passado e analisou a fundo tanto essa experiência como os avanços teóricos a ela associados para chegar à conclusão de que, no seu aspecto principal, essa teoria é fundamentalmente correcta e científica, mas que de uma forma secundaria contém elementos errados que é necessário abandoná-los e desenvolver mais a teoria para abranger os novos fenómenos e fazer esforços mais profundos de forma a impedir a restauração capitalista e avançar mais rumo ao comunismo, entre outros problemas. Assim, na realidade, e ao contrário das adulterações do PC(M)A, a nova síntese representa principalmente uma continuação e um desenvolvimento em novas condições da ciência comunista desenvolvida desde Marx a Mao, e secundariamente, é sim uma crítica e uma ruptura com elementos errados secundários mas importantes que objectivamente contradizem o seu carácter principalmente correcto e científico.
De uma forma mais profunda, todas as formas de colocar o problema exprimem uma abordagem dogmática e religiosa. Como é que se decide o que é correcto ou incorrecto na nova síntese? Na essência, o método do PC(M)A é decidir da sua veracidade segundo o seu suposto grau de correspondência ou ruptura com «a doutrina» anterior. Uma abordagem científica requereria examinar em que grau a nova síntese corresponde ou no à realidade material. Por exemplo, se analisarmos a verdadeira experiência do socialismo com o método do materialismo dialéctico, será que Avakian tem ou não razão em retomar os elementos essenciais da teoria de Mao de continuação da revolução no socialismo, tais como a persistência da luta de classes antagónicas, a criação de uma nova burguesia entre parte da liderança do partido comunista, a base material para a restauração capitalista no «direito burguês», as desigualdades e outras relações e ideias herdadas do capitalismo e a necessidade de mobilizar as massas para ir transformando tudo isto passo a passo? Por outro lado, será que Avakian tem ou não razão em criticar tendências nacionalistas na China e na União Soviética expressas, por exemplo, em «acções por vezes acentuadas de subordinar a luta revolucionária noutros países às necessidades do estado socialista existente» ? Tem ou não razão em propor a orientação de um «núcleo sólido com muita elasticidade», combinando um núcleo sólido que luta por avançar rumo ao comunismo com muita elasticidade, no só permitindo, mas também promovendo no socialismo a dissensão e a crítica, incluindo ao partido e ao socialismo, ou em criticar o conceito de «verdade de classe» e em defender um maior papel para os intelectuais no socialismo? Esto sólo para mencionar algunas cuestiones pertinentes.
O PC(M)A não aborda estas questões, rejeita a nova síntese sem analisar nem responder ao seu conteúdo . É como se os físicos, ao avaliarem a nova teoria da relatividade de Einstein, em vez de examinarem em que grau a teoria newtoniana anterior, bem como a nova teoria de Einstein, explicam ou não os fenómenos da natureza, se opusessem à teoria de Einstein devido à sua «ruptura» com a teoria de Newton. Novos avanços teóricos na ciência podem representar uma maior ou menor continuidade ou ruptura com o conhecimento anterior (a nova síntese, repetimos, é principalmente uma continuação e um desenvolvimento da essência científica do Marxismo, e secundariamente uma ruptura necessária com elementos errados), mas a questão essencial de um ponto de vista científico não é esse, mas sim se o novo desenvolvimento teórico nos dá uma explicação mais correcta da realidade e portanto uma maior capacidade de transformá-la ou não.
Não há sagrado no Marxismo (e, de facto, tratá-lo como algo sagrado vai contra o método  científico e materialista dialéctico do Marxismo). Se houver factos que demonstrem a falsidade de princípios fundamentais do Marxismo ou do próprio Marxismo, seria necessário abandoná-lo. Contudo, tal como Bob Avakian mostrou na sua resposta ao crítico burguês do Marxismo, Karl Popper, os princípios centrais do Marxismo foram repetidamente comprovados na prática social e não há factos que o contradigam ou que demonstrem a falsidade desses princípios . Contudo, há importantes elementos secundários no Marxismo ou no Marxismo-Leninismo-Maoismo (tais como as tendências para o nacionalismo ao se tratar da contradição entre a defesa dos países socialistas e o avanço da revolução mundial, a ideia da «inevitabilidade» do comunismo, etc.) que são erradas e contradizem a essência científica do Marxismo e, portanto, uma ruptura com esses elementos é de facto essencial. Com a sua falsa caracterização da nova síntese como uma ruptura total e um repudio da ciência comunista anterior , o que na realidade o PC(M)A, tal como outros representantes da tendência dogmática, defende no movimento actual é a sua oposição à necessidade destas rupturas e, em geral, a sua oposição à necessidade de um desenvolvimento qualitativo da ciência para poder dirigir correctamente uma nova etapa da revolução comunista.

4.    Pode haver um movimento comunista que não se empenhe no comunismo?

Temos de fazer a pergunta: Pode haver um movimento comunista que não se empenhe no comunismo?, porque nos encontramos numa situação em que uma importante parte do movimento comunista internacional não se preocupa com o comunismo nem com os problemas da transição socialista para o comunismo. Podem tentar negar que se esteja no fim de uma etapa, podem tentar negar que há uma premente necessidade de desenvolver a ciência comunista, mas assim que saem da sua «igreja comunista» e falam com outros do socialismo e do comunismo, tropeçam em perguntas como «se o socialismo foi assim tão bom, porque é que foi derrotado?» há uma resposta a esta pergunta e a outras semelhantes mas, tal como disse Avakian, «há que escavar para encontrar a resposta e depois continuar a escavar» e isto é o que a tendência dogmática diz não ser necessário fazer agora. Portanto, falam muito em «guerra popular» e muito pouco no que deveria ser o seu objectivo, na esperança de que, com os «avanços na prática» do movimento, se esfumarão esses difíceis problemas políticos e ideológicos. Por outro lado, a outra tendência errada, a de editar fora toda a experiência anterior como sendo essencialmente negativa, também evita o assunto ou apresenta o socialismo e o comunismo como algo que é cada vez mais difícil de distinguir da actual democracia burguesa. e entre as duas tendências ou miscelâneas das mesmas é comum encontrar o argumento mais grosseiro de «para quê falar em socialismo agora? Podemos falar disso quando tomarmos o poder».
Por isso é importante a pergunta: Porque é tão essencial empenharmo-nos agora na compreensão mais científica do comunismo que nos brinda a nova síntese e popularizá-la entre as massas?
Em primeiro lugar, porque se a actual luta não for guiada por uma correcta compreensão do objectivo (além de outras questões cardiais), não servirá para se atingir esse objectivo. Todos já fizemos alguma vez uma viagem, fosse curta ou longa, e a ninguém ocorreu pensar que «Estou no início da minha viagem, por isso não me interessa onde fica o meu destino». Contudo, esta é a lógica daqueles que pensam que as questões do socialismo e do comunismo que são tão agudamente colocadas pela derrota temporária do socialismo «não estão na ordem do dia». É uma calunia da burguesia dizer que o comunismo defende que «os fins justificam os meios». O que é verdade, pelo contrário, é que os fins determinam ou devem determinar os meios, e se não há uma clareza sobre o objectivo, não se adoptarão os meios apropriados para o atingir.
Temos a amarga lição da guerra popular no Vietname ,que avançava nos anos 1960 num período em que irrompeu a luta entre as duas linhas no movimento comunista internacional. A linha de Mao, no processo de desenvolver a teoria da continuação da revolução no socialismo, enfrentava a linha dos revisionistas, os falsos comunistas, na União Soviética que tinham restaurado o capitalismo, principalmente na forma de capitalismo de estado, sob a direcção de um partido «comunista» agora revisionista. o Partido dos Trabalhadores do Vietname (PTV) assumiu uma posição centrista, advogando a unidade a partir de uma posição nacionalista e pragmática. Quando os revisionistas soviéticos passaram da conciliação com o imperialismo ocidental com Kruschov a um cada vez maior enfrentamento sobre uma base imperialista com Brejnev e, nesse contexto, devido às suas próprias ambições imperialistas, começaram a fornecer mais ajuda militar ao Vietname, o PTV ligou-se cada vez mais ao social-imperialismo soviético.
Assumir uma posição centrista e advogar pela unidade entre o que objectivamente era capitalismo de estado com uma fachada socialista na União Soviética, e o que era o verdadeiro socialismo como transição para o comunismo na China, representava objectivamente, uma posição de «ignorar» a diferença entre capitalismo e socialismo, e se a guerra popular que estava a ser feita no Vietname iria levar ao socialismo ou a alguma forma de capitalismo.
E aí estão os resultados dessa linha nacionalista e pragmática, para quem os queira ver. Com um custo de milhões de vidas, o povo vietnamita ganhou a guerra popular contra o imperialismo norte-americano… mas a sua revolução nunca tomou o caminho do socialismo. Primeiro, foi dominado pelo social-imperialismo soviético e, com a queda desse império, o país regressou ao redil do bloco imperialista encabeçado pelos Estados Unidos. e agora os trabalhadores do Vietname hoje em dia são escravos assalariados explorados em fábricas que são propriedade dos imperialistas.
Porque é que acabou por ficar assim? Não se deveu essencialmente a nenhuma desonestidade pessoal dos dirigentes, mas sim à linha ideológica e política que guiava o Partido. Aprendeu-se com a luta de classes no socialismo na China que muitos dos elementos que degeneraram em revisionistas eram, na realidade, democratas burgueses que haviam aderido ao Partido de uma forma orgânica mas não ideológica. Muitos deles fez contribuições no período da revolução democrática contra o imperialismo e o feudalismo, mas opuseram-se a que a revolução continuasse no socialismo e defenderam a linha revisionista. O objectivo essencial deles não era o comunismo e a eliminação das classes, mas simplesmente terem um país independente, moderno e próspero. Esta também foi a orientação do PTV, e a actual posição no movimento comunista internacional de ignorar a necessidade de se envolver nas questões da transição socialista para o comunismo e da restauração capitalista também reflecte os desvios para o nacionalismo, o pragmatismo e a democracia burguesa, sobretudo entre os comunistas que levam a cabo a luta nos países do «terceiro mundo». Não vêem a importância de se envolverem com o socialismo como transição para o comunismo porque, na essência o objectivo é outro: como melhorar de alguma forma, através da revolução e de alguma forma de capitalismo de estado, a posição do «meu» país no sistema capitalista-imperialista mundial.
Em segundo lugar, não se vai fazer nenhuma revolução comunista sem se convencer uma parte importante das pessoas que agora pensam que o comunismo «fracassou» ou foi pior que o capitalismo, e não se vai conseguir isso simplesmente através dos «êxitos práticos» de um movimento que não discute o comunismo. Requer um trabalho teórico para se compreender mais profundamente a verdade destas questões e requer uma luta ideológica com as massas para contrariar a campanha ideológica anticomunista do inimigo (vem como o predomínio da ideologia burguesa em geral). Já tínhamos visto no caso de Cuba que fazer uma revolução e só depois falar num pretenso «comunismo» apenas leva também, quando muito, a um capitalismo de estado revisionista.
Finalmente, um verdadeiro movimento comunista capacita os proletários e outras massas a governarem e o verdadeiro socialismo como transição para o comunismo precisa de envolver sectores cada vez mais vastos das massas na governação da nova sociedade e na luta pelo avanço rumo ao comunismo. E isto também nao vai acontecer ignorando as questões «difíceis» do socialismo e do comunismo, bem como outras questões cardiais da revolução.

5.    Se não se debate a forma de acabar com as «quatro todas», não se está a lutar pelo comunismo

No desenvolvimento do movimento comunista no século passado, influenciou cada vez mais um materialismo mecânico que tendia a identificar o socialismo simplesmente com a propriedade estatal, a planificação económica e a direcção de um «partido comunista» com o qual não se pode distinguir entre o capitalismo de estado revisionista e o socialismo, já que estas são característicos de ambos. Frente a estes erros do período da Terceira Internacional, e ainda mais com o profundo abalo da restauração do capitalismo na forma de capitalismo estatal sob a direcção de um partido comunista revisionista, propagando a ideologia burguesa com um discurso aparentemente marxista, foi essencial todo um trabalho de escavação teórica para redescobrir em grande parte a essência profundamente revolucionária do Marxismo quanto ao socialismo. Mao e os seus camaradas começaram este trabalho e ele foi continuado por Bob Avakian, o que incluiu um repetido regresso a uma citação profunda e essencial de Marx:

Este socialismo é a declaração da permanência da revolução, a ditadura de classe do proletariado como ponto de transição necessário para a abolição das diferenças de classe em geral, para a abolição de todas as relações de produção em que aquelas se apoiam, para a abolição de todas as relações sociais que correspondem a essas relações de produção, para a subversão de todas as ideias que emanam destas relações sociais.

O que é que isto significa? Que o socialismo e a ditadura do proletariado é e só pode ser um período histórico de transição para o comunismo que, tal como disse Avakian, «desemboca no que nos, maoistas, chamamos ‘as quatro todas’ – ou seja, a abolição de todas as diferenças de classe entre as pessoas; a abolição ou o fim de todas as relações de produção ou relaciones económicas subjacentes a estas diferenças de classe e divisões entre as pessoas; o fim de todas as relações sociais que estão ligadas a estas relações económicas e de produção – relações de opressão entre homens e mulheres, entre diferentes nacionalidades e entre pessoas de diferentes partes do mundo, tudo isto irá acabar e iremos será ultrapassado e, por fim, o revolucionar de todas as ideias que estão ligadas a isto, com este sistema capitalista, com estas relações sociais» .
Se olharmos ao nosso redor, as sociedades actuais são como uma pirâmide, com um pequeno grupo de grandes capitalistas e outros exploradores no cume. A revolução socialista, ao remover o cume e estabelecer uma economia e uma sociedade ao serviço das necessidades do povo e da revolução mundial, em vez dos lucros de alguns, possibilita grandes transformações e avanços libertadores. Contudo, fica, por assim dizer, o resto da pirâmide, com muitas desigualdades e relaciones herdadas da velha sociedade, bem como as correspondentes ideias. A abolição das quatro todas implica acabar passo a passo com tudo isto, desfazer toda a pirâmide e as correspondentes ideias, chegar finalmente à abolição, entre outras coisas, do intercambio de mercadorias através do dinheiro; eliminar a contradição entre trabalho manual e intelectual, partilhando os dois tipos de trabalho entre todos; ultrapassar o principio socialista de pagar segundo o trabalho realizado e passar a aplicar o principio comunista «De cada um segundo as suas capacidades; a cada um segundo as suas necessidades»; não apenas ultrapassar a opressão nacional mas transcender as próprias nações; eliminar todos indícios de opressão das mulheres pelos homens e da ideologia patriarcal; e muito mais. Enfim, implica chegar a uma livre associação de seres humanos em todo o mundo sem exploração, opressão nem desigualdades sociais, sem classes, nações nem estados, em que «haverá princípios colectivos cooperativos para o bem comum e, dentro disto, os indivíduos e a individualidade irão florescer de uma forma que nunca antes foi possível» .
É este o objectivo final? Ou o objectivo é simplesmente uma economia planificada que proporcione melhores condições às massas? Ou não chegaremos a distinguir a diferença? «Propomos uma sociedade que, além de responder às necessidades do povo, se caracterize cada vez mais pela expressão e a iniciativa consciente das massas? Isto é uma transformação mais fundamental que uma sociedade de assistência social, socialista no nome mas capitalista na essência, em que o papel das massas se limita em grande parte a produzir riqueza, não a debater e a definir as questões do estado, o rumo da sociedade, a cultura, a filosofia, a ciência, as artes, etc.» .
Foi a grande descoberta de Mao – agora ignorada ou repudiada por grande parte dos pretensos «maoistas» – com base no balanço da experiência da restauração do capitalismo na antiga União Soviética e da luta de classes no socialismo na China, que as desigualdades e as relações herdadas da velha sociedade que persistem no socialismo – aquilo a que Marx chamava o «direito burguês» ou os «estigmas» da velha sociedade na nova  –, bem como as correspondentes ideias, não só têm de ser transformadas e eliminadas para se chegar ao comunismo, como também, juntamente com o cerco imperialista, constituem a base, na sociedade socialista, da persistência de uma luta de classes antagónicas e a configuração de uma nova burguesia entre alguns altos dirigentes do próprio partido comunista, os «seguidores da via capitalista» que aplicam uma política de defesa e expansão destas desigualdades, relações e ideias herdadas da velha sociedade, em vez de ir restringindo-as passo a passo. Se esta posição, esta linha, consegue dar um golpe de estado e colocar-se ao comando do partido comunista e do estado socialista, restaurará o capitalismo, ainda que inicialmente na forma de um capitalismo de estado que ainda preserva o nome de «socialismo» sob a direcção de um partido revisionista que continua a chamar-se «comunista», e foi precisamente isto o que se passou na União Soviética em 1956 e na China em 1976.
Os fundadores do socialismo não previam esta complexidade da transição revelada pelas experiências iniciais do socialismo, e em 1936, Estaline erradamente concluiu que já não existiam classes antagónicas na União Soviética. Com  esta ideia fundamentalmente errada, interpretou a oposição e a luta que de facto persistiam como sendo unicamente produto de agentes do imperialismo e das classes exploradoras derrubadas, confundiu contradições no seio do povo com contradições com o inimigo e apoiou-se cada vez mais nas forças repressivas do estado socialista na luta de classes, em vez de se apoiar fundamentalmente na mobilização das massas e dirigi-las a levar a cabo a luta ideológica e política para continuar a avançar até ao comunismo.
Mao, por sua vez, ao chegar a uma compreensão mais correcta da persistência de uma luta de classes antagónicas no socialismo, descobriu na Revolução Cultural uma forma para libertar a iniciativa e a revolta das massas no socialismo para aprenderem a distinguir e a analisar as posições que defendiam as relações e ideias herdadas do passado com argumentos «marxistas» e «comunistas», a criticar e derrubar os dirigentes comunistas seguidores dessa via capitalista, a empenharem-se cada vez mais elas próprias nos problemas da transição comunista e a fazerem muitas novas e inovadoras transformações das relações produtivas e sociais, bem como nas ideias.
Estes enormes avanços teóricos e práticos são, hoje em dia, a «herança esquecida» pela tendência dogmática e pela tendência mais abertamente democrático-burguesa no movimento comunista internacional que, apesar das suas diferenças entre si, partilham a característica de «Jamais levarem a cabo – nem terem em conta de uma forma sistemática – um balanço científico da anterior etapa do movimento comunista, e em particular a pioneira análise de Mao Tsé-tung sobre o perigo e as raízes da restauração capitalista na sociedade socialista» .
Depois de 10 anos de Revolução Cultural, depois de derrotar duas tentativas de golpe revisionistas, depois de levar milhões de pessoas a debater, criticar e influenciar o rumo da sociedade de uma forma nunca antes vista na história, depois de criar novas coisas socialistas inauditas, infelizmente, com a morte de Mao, uma nova camarilha revisionista conseguiu fazer um golpe de estado, encarcerar os seguidores de Mao (o «bando dos quatro»), derrotar militarmente as milícias populares que se levantaram contra a usurpação e restaurar o capitalismo.
À luz desta experiência e destas descobertas, para quem tenha a vista posta no objectivo do comunismo, deve ser evidente que há muito mais a compreender, muito mais a desenvolver, para poder exercer melhor a ditadura do proletariado e avançar mais rumo ao comunismo nesta nova etapa da revolução proletária mundial. Nestes tempos de «conhecida tendência a reduzir o ‘Maoismo’ a uma mera receita para fazer a guerra popular num país do terceiro mundo, ao mesmo tempo que, uma vez mais, ignoram ou retiram importância à mais importante contribuição de Mao para o comunismo: o desenvolvimento da teoria e da linha da continuação da revolução sob ditadura do proletariado» , não podemos insistir demasiado que as linhas que se opõem ao envolvimento agora nos problemas da transição socialista para o comunismo se mantêm dentro do sistema capitalista de uma ou outra forma e não correspondem a uma luta capaz de estabelecer de novo a ditadura do proletariado e de dirigir as massas no exercício do Poder para avançarem mais e melhor rumo ao comunismo. Se não há envolvimento no objectivo da luta comunista, se não há envolvimento na forma como acabar com as «quatro todas», não se está a lutar pelo comunismo.

6.    Uma nova sociedade profundamente revolucionária e libertadora: o núcleo sólido com muita elasticidade

Ao contrario dos que argumentam que é suficiente o «marco teórico existente» do século passado, bem como dos que querem abandonar a experiência passada como sendo essencialmente negativa, a nova síntese fornece-nos uma compreensão mais profundo das contradições do processo da transição histórica mundial do sistema capitalista-imperialista mundial para o sistema comunista mundial, um balanço dos erros secundários mas importantes do passado, e um novo quadro teórico, orientação e método de como avançar mais e melhor nesta nova etapa da revolução comunista .
Uma contribuição central do camarada Avakian para um melhor debate sobre as contradições da transição socialista é a do núcleo sólido com muita elasticidade: «É necessário um núcleo sólido que capte firmemente e esteja comprometido com os objectivos estratégicos, as metas e o processo de luta pelo comunismo. Se perdemos isto, terminaremos por devolver tudo aos capitalistas de uma forma ou de outra, com todos os horrores que isso implica. Mas, por outro lado, se não abrirmos espaço para uma grande diversidade e para que as pessoas explorem muitos caminhos, isso irá causar um grande ressentimento e, além disso, não vamos ter o processo dinâmico e multifacetado que permite que surja no maior grau possível a verdade e que nos dê a capacidade de transformar a realidade» .
Isto é algo profundo, novo e importante. Em relação dialéctica com  um núcleo sólido que luta pelo comunismo, é necessário não apenas permitir, mas também estimular a dissensão, o debate, a diversidade, a «elasticidade». Porquê? Porque essa diversidade existe na sociedade socialista e não a reconhecer nem lidar correctamente com ela leva a um «grande ressentimento» e a consequencias nefastas. Porque, se bem que seja necessária a direcção do partido comunista, também é essencial incorporar cada vez mais as vastas massas no governo da nova sociedade e debater os problemas da transição comunista, e isso não se consegue por mandato, antes requer debate, dissensão e luta. E como não há um mapa predeterminado para se chegar ao comunismo, este processo envolve muitos problemas complexos e difíceis que terão de ser resolvidos, e é necessário uma relação dialéctica entre o núcleo sólido comunista e a «elasticidade» de muita diversidade, debate e experimentação social para se encontrar as respostas adequadas. Será muito difícil abarcar tudo isto num sentido lato e guiá-lo rumo ao comunismo – de facto, Avakian salienta que em momentos críticos se terá a sensação de se estar no limite de se ser esquartejado – mas esse processo rico e multifacetado é essencial tanto para a criação de uma nova sociedade socialista em que a grande maioria queira viver como para se fazer com que essa sociedade avance, em conjunto com o avanço da revolução mundial, rumo ao comunismo e não de regresso ao capitalismo .
O PC(M) do Afeganistão, no documento já citado, denuncia a nova síntese em geral como sendo «humanismo trivial» a que contrapõe «incluindo no socialismo» «a luta de classes revolucionária» e a «continuação da luta de classes» . Na realidade, como vimos, a nova síntese parte precisamente do reconhecimento da continuação da luta de classes antagónicas no socialismo e de como lutar melhor com essa e outras contradições da transição socialista para o comunismo, Não nos fazem o favor de nos darem sequer um exemplo desse suposto «humanismo trivial». Será porque Avakian propõe a luta pela «emancipação da humanidade» e não simplesmente das classes oprimidas? Não nos dizem. O que se pode supor, pelo menos, com a sua defesa do «quadro teórico existente» de há 40 anos e com a sua insistência na «luta de classes» em oposição a um suposto «humanismo trivial», é que o PC(M)A não está de acordo com a crítica à tendência para a «reificação» do proletariado no movimento comunista do século passado.
A «reificação» do proletariado e de outros grupos explorados é «uma tendência que considera que as pessoas específicas desses grupos, enquanto indivíduos, representam os interesses gerais do proletariado enquanto classe e, num sentido mais lato, a luta revolucionária que corresponde aos interesses fundamentais do proletariado» . Esta tendência tem sido expressa, por exemplo, na ideia de que as pessoas provenientes das classes exploradas têm necessariamente uma posição mais revolucionária e «proletária» que as pessoas de outras camadas. Ainda que seja verdade que o proletariado é a base social mais firme da revolução comunista, isso não se pode aplicar mecanicamente à ideologia e ao papel dos indivíduos: Marx, tal como observou Lenine, provinha da intelectualidade burguesa e, apesar disso, tinha a posição mais consequentemente revolucionária e de acordo com a realidade dos revolucionários do seu tempo. Um outro reflexo da mesma tendência errada foi a ideia que existiu na União Soviética de que, ao se treinar técnicos e outros elementos de entre os operários e camponeses, se iria resolver o problema da transformação dessas camadas. Ainda que isto tenha sido um progresso necessário e importante, não captava o suficiente a necessidade de se ir reduzindo as diferenças entre trabalho manual e intelectual (que não se alteravam mesmo que a origem de classe dos novos técnicos fosse proletária) e que não era por virem da classe operária que essas pessoas iriam necessariamente desempenhar um papel de acordo com o avanço da revolução comunista.
Isto exprime-se também na concepção do objectivo da luta: É apenas a eliminação da opressão e da exploração das classes antes oprimidas e exploradas (a qual é necessária mas não suficiente) ou requer a abolição das «quatro todas», o que implica a emancipação de toda a humanidade de todas as relações e ideias características das sociedades de classes? Ao contrário de todas as classes revolucionárias anteriores, o proletariado não visa simplesmente emancipar-se e estabelecer o seu domínio sobre a sociedade, antes visa desaparecer com o desaparecimento das classes em geral, já que não se pode emancipar «sem emancipar ao mesmo tempo, e para sempre, a sociedade inteira de toda a exploração, opressão, divisão em classes e luta de classes» . Ou como Avakian formulou de uma forma tão sucinta e profunda: «O comunismo: um mundo completamente novo e a emancipação de toda a humanidade – e não ‘os últimos serão os primeiros, e os primeiros, os últimos’» .
Ainda que o PC(M)A não nos forneça nem exemplos nem argumentos sobre o seu desacordo com o conteúdo da nova síntese, é simplesmente um expoente da tendência dogmática geral no movimento comunista internacional, que também teve bastante influência na nossa própria organização, a Organização Comunista Revolucionária, México. Assim, dado que o PC(M)A não nos fornece argumentos mais concretos, partilhamos com a leitora ou o leitor alguns argumentos das nossas próprias fileiras e outros que, muito provavelmente, têm a sua contrapartida de uma ou outra forma nas concepções dogmáticas expressas pelo PC(M)A e outros no movimento internacional.
Um dos argumentos é que falar dos erros do passado só fortalece a ofensiva anticomunista da burguesia. Esta ofensiva é real e, tal como comenta Avakian, há «verdadeiros tubarões» 33 que tentam aproveitar-se dos erros dos comunistas, mas uma abordagem científica capaz de compreender os problemas tal como eles realmente são e com o fim de lhes dar soluções reais requer identificar claramente tanto o que foi (principalmente) correcto como o que foi (secundariamente) errado na teoria e na prática anteriores. Ao abordar a experiência de uma forma científica, pode-se distinguir entre as mentiras e distorções, por um lado, e os verdadeiros erros, por outro, bem como compreender as condições em que estes foram cometidos, os erros de método envolvidos e retirar as lições pertinentes. Tudo isto na realidade fortalece a capacidade do comunismo para responder à ofensiva anticomunista e também contribui para o desenvolvimento de uma compreensão mais de acordo com a realidade que possa guiar a luta pelo comunismo. O método de não criticar abertamente as concepções do passado e de, em vez disso, dizer outra coisa como se houvesse uma continuação do passado quando não o é (ou ainda pior, simplesmente continuar a repetir os erros) representa uma abordagem quase religiosa do Marxismo que tem causado muitos danos no movimento.
Um outro argumento é que ao se estimular a dissensão, se irá restaurar mais rapidamente o capitalismo, e tem-se argumentado que Mao tentou algo semelhante com a política dos anos 1950 de que cem flores desabrochem e cem escolas de pensamento rivalizem, e que isso não resultou, que foi aproveitado pela direita e que teve de ser terminada. É verdade que a velha e a nova burguesia tentarão aproveitar-se de aberturas à dissensão para restaurarem o capitalismo, e é verdade que esta abordagem exige muito mais dos comunistas para convencerem os outros da força dos seus argumentos. Contudo, a experiência tem mostrado que as tendências erradas para tentar lidar com as complexas contradições do socialismo por decreto deixam as massas inconscientes e desarmadas, levam a que se trate antagonicamente as contradições no seio do povo, «arrefecem» o ambiente ao suprimirem o necessário fermento de diversas ideias e de trabalho científico, artístico e cultural e criam uma rigidez do pensamento incapaz de lidar correctamente com as contradições da transição socialista, que são complexas e não de solução «óbvia» na maioria dos casos.
É necessário estudar mais profundamente a experiência das «cem flores», mas pode dizer-se que mesmo que os reaccionários de dentro e fora do partido se tenham aproveitado da abertura, isso na realidade ajudou a clarificar várias posições no debate que Mao e os revolucionários depois puderam criticar mais profundamente e combater mais completamente. e isso esteve longe se ser o «fim» da dissensão no socialismo maoista: a revolução cultural implicava, entre outras coisas, o debate e a dissensão em grande escala.
A nova síntese e o núcleo sólido com muita elasticidade representam um progresso qualitativo, inclusive para além do melhor da experiência passada, e um balanço científico dessa experiência indica que a «elasticidade», a dissensão, o debate e a diversidade de experimentação social que propõe são essenciais para esclarecer os complexos problemas da transição socialista, para educar as massas e os próprios comunistas no confronto entre diversos pontos de vista na luta entre o avanço comunista e o retrocesso capitalista, e para que as massas participem cada vez mais no governo da nova sociedade, aproveitando as possíveis contribuições dos mais diversos sectores sociais sempre que um núcleo sólido que se vai expandindo lute constantemente por «abranger» tudo isto no sentido mais lato e lute para contribuir para o avanço rumo à meta comunista.
Também tem sido argumentado que isto dará um maior papel aos intelectuais e artistas (e, de facto, a nova síntese propõe um maior papel para os intelectuais e artistas no socialismo), que não sofreram e portanto vão lutar pela restauração, ao contrário dos operários e camponeses que sofreram e portanto vão ser a favor do socialismo e ter mais verdade do seu lado (ou seja, uma expressão da «reificação» do proletariado e outros oprimidos, já comentada, bem como da posição da «verdade de classe» que Avakian tem criticado). Ainda que o comunismo corresponda aos interesses gerais do proletariado como classe, não é por isso que os indivíduos que são proletários ou de outros grupos oprimidos tenham necessariamente uma posição melhor ou mais correcta e ainda que o ponto de vista e método científico do comunismo nos forneça a forma mais global, sistemática e consequente de chegar à verdade, as pessoas que não a partilham ou mesmo que estão contra ela também descobrem verdades. O caso Lysenko, na União Soviética, ilustra-nos quão nociva é esta ideia de «verdade de classe» e a importância de nos basearmos na verdade objectiva, independentemente de quem a descubra. Houve uma controvérsia na União Soviética quando ela era socialista, entre o agrónomo Lysenko, que defendia a teoria da «herança de características adquiridas», que na realidade a ciência mostrou ser falsa, e outros cientistas que defendiam que essa teoria era incorrecta. Estaline e outros dirigentes do partido intervieram em apoio de Lysenko, que era um apoiante do socialismo e do comunismo, contra os outros cientistas que tinham posições políticas mais recuadas, em parte também por razões pragmáticas, porque isso prometia resolver mais rapidamente os graves problemas da agricultura. Na realidade, os cientistas que mais se opunham ao socialismo tinham razão nesta questão, e não o reconhecer causou grandes danos, não só porque não resultou mas também devido ao método errado que também era aplicado noutros casos  e que se tornou parte da orientação guia para as ciências e a metodologia do partido.
Por outro lado, como parte do combate à restauração capitalista e do avanço rumo ao comunismo, é essencial conviver com as camadas intermédias e transformá-las. Tal como assinalou Avakian, «isto é uma unidade de contrários: conviver com as camadas intermédias e transformá-las. Se só nos propomos conviver com elas, acabaremos por entregar o poder, não à pequena burguesia, mas sim à burguesia; e esta ditará cada vez mais a situação. Por outro lado, se só nos propomos a transformar a pequena burguesia (falando em termos gerais das camadas intermédias), acabaremos a tratá-las como se fossem a burguesia e a levá-las para o campo da burguesia, o que minará seriamente a ditadura do proletariado e, dessa forma também perderemos o poder» .
A orientação do núcleo sólido com muita elasticidade está relacionada com uma ruptura epistemológica com tendências erradas no movimento comunista internacional de «verdade política» e de identificar a «verdade» com aparentes vantagens imediatas para as forças revolucionárias, ao insistir, pelo contrário, no método científico do materialismo dialéctico e na necessidade de nos basearmos na verdade objectiva, incluindo as «vergonhosas verdades» dos erros que o movimento comunista internacional cometeu, ao insistir em que «A verdade é boa para o proletariado; todas as verdades ajudam-nos a chegar ao comunismo» .
O reconhecimento mais profundo de que a transição socialista para o comunismo requer resolver muitas contradições ainda por resolver e de que para isso é necessária a interacção dialéctica entre um núcleo sólido comunista e muita «elasticidade», dissensão e experimentação social para se poder encontrar as respostas adequadas também está relacionado com a ruptura filosófica com a tendência para o «inevitabilismo» que se encontra até no Manifesto Comunista como elemento secundário contrário ao método principalmente científico de Marx e Engels e que chegou a atingir expressões mais extremas de materialismo mecânico e concepções quase religiosas de predeterminação, como as ideias expressas por Abimael Guzmán, mais conhecido como «Presidente Gonzalo» do Partido Comunista do Perú (PCP), de que «estamos condenados à vitória» ou que «quinze mil milhões de anos levaram a Terra a gerar o comunismo» .

7.    Um núcleo sólido sem elasticidade que «impõe» o comunismo: «Avançar» mantendo os erros do século XX

Esta metodologia mecânica e determinista está relacionada com outro conceito sobre como resolver os problemas da transição socialista para o comunismo: a linha da «guerra popular até ao comunismo» expressa sem muito desenvolvimento teórico pelo Partido Comunista do Peru (PCP) e retomada por alguns dos actuais detractores da nova síntese.
Ao criticar este conceito errado, gostaríamos de salientar que a guerra popular no Peru dirigida pelo PCP e pelo seu presidente Gonzalo representou um importante avanço na revolução comunista mundial que deu novas esperanças aos oprimidos de todo o mundo. Mereceu e recebeu o apoio dos comunistas, revolucionários e progressistas de todo o lado. Contudo, é necessária uma análise mais profunda para se extraírem as lições dessa rica experiência. Não pretendemos fazer aqui um balanço mais geral da linha do PCP sob a direcção de Gonzalo antes de propor a partir da prisão a linha oportunista de direita de negociar o fim da guerra popular .
Quanto à linha da «guerra popular até ao comunismo», para começar, a própria concepção do problema está errada. o PCP disse que «A burguesia quando perde o Poder introduz-se dentro do Partido, utiliza o exército e tenta usurpar o Poder, destruir a ditadura do proletariado para restaurar o capitalismo (…)» 39 Desta forma não se distingue entre o problema dos representantes da velha burguesia derrubada que se introduzem dentro do Partido e o problema da nova burguesia que é criada no socialismo e em particular entre alguns dirigentes do partido comunista devido à persistência do «direito burguês» – as desigualdades e relações herdadas da velha sociedade nas relações produtivas e sociais – bem como as ideias que lhes correspondem. De facto, nota-se algo dessa mesma concepção em vários documentos do principio da Revolução Cultural, mas a compreensão de Mao e dos seus camaradas ia-se desenvolvendo cada vez mais ao analisar a forma como as próprias contradições da sociedade socialista geraram novos elementos burgueses.
Como salientou Chang Chun-chiao, camarada de Mao no combate aos revisionistas que acabaram por tomar o poder após a morte de Mao, numa altura em que a China ainda era socialista: «É preciso ter plena consciência do facto de que a China continua exposta ao perigo de cair no revisionismo. Porque não só o imperialismo e o social-imperialismo nunca abandonaram os seus objectivos de agressão e subversão contra nós, não só os antigos senhores de terras e burgueses continuam presentes e não se resignam às suas perdas, mas também, como dizia Lenine, todos os dias, todas as horas são engendrados novos elementos burgueses» . E Chang procede analisando detalhadamente como é que a manutenção do direito burguês nas relações de produção no socialismo origina uma nova burguesia, bem como a luta entre continuar a restringir o direito burguês ou consolidá-lo e expandi-lo. Ao falar da necessidade de eliminar as «quatro todas» ácima mencionadas, diz: «Marx utiliza as expressões ‘todas’ ou ‘em geral’ por quatro vezes! Ele não diz em parte, nem em grande parte, nem em muito grande parte, ele diz na totalidade!» e contrasta essa necessidade com os membros do partido comunista que «são pela ditadura do proletariado em determinada etapa e num dado domínio, e alegram-se com algumas vitórias do proletariado», mas, chegado a certo ponto, opõem-se a que se continue a restringir o direito burguês: «Ditadura integral sobre a burguesia? (…) Desculpe! Que outros se metam nisso, eu, por mim, paro aqui, desço do comboio. A esses camaradas daremos este conselho: Descer a meio do caminho é perigoso!». E quanto aos dirigentes revisionistas seguidores da via capitalista assinala: «Queres restringir o direito burguês? Ele acha-o excelente e diz que é preciso expandi-lo. Estes campeões das coisas velhas zumbem, como um enxame de moscas, à volta do que Marx chamava os ‘estigmas’ e os ‘defeitos’ da antiga sociedade. Eles dão uma atenção muito especial a pregar aos jovens e adolescentes, aproveitando a sua inexperiência, que o incentivo material é como um queijo fermentado que embora cheire mal é bastante saboroso» .
Este entendimento maoista que se desenvolveu a partir da luta de classes no socialismo foi o que Bob Avakian resgatou, defendeu e sistematizou na sequência do golpe de estado na China: «são precisamente os dirigentes do partido seguidores da via capitalista que constituem o maior perigo para o socialismo e devem ser o principal alvo da luta revolucionária (…) As contradições da sociedade socialista – as divisões do trabalho e as diferenças de salários que se mantêm, a persistência das relações de mercado, etc., e a persistente influência da ideologia burguesa – criam a base para que constantemente se engendrem elementos burgueses na sociedade em geral e sobretudo ao alto nível do partido, e para que se mobilize uma base social para a contra-revolução. Isto não quer dizer que todos os funcionários dirigentes, meramente devido à sua posição, se vão converter necessariamente em burgueses traidores à revolução. Mas quer dizer que isso irá acontecer com alguns (em particular os que adoptem um estilo de vida burguês e uma linha política e ideológica revisionista), e que irão ter a necessidade e a oportunidade de galvanizar seguidores para tomarem o Poder e restaurarem o capitalismo. Este problema, tal como concluiu Mao, irá persistir durante um longo período do socialismo, até que as contradições deste se resolvam através do avanço revolucionário rumo ao comunismo» .
O próprio golpe de estado na China mostra a certeza desta análise: aqueles que tomaram o Poder não eram representantes da antiga burguesia derrubada, ainda estacionada em Taiwan, mas sobretudo representantes de uma nova burguesia surgida no socialismo. A formulação citada do PCP passa por alto todo este desenvolvimento da teoria maoista e, francamente, representa um recuo aos erros de Estaline, que pensava que o perigo da restauração provinha de representantes directos da antiga burguesia e dos países imperialistas. Se bem que o PCP, ao contrario de Estaline, reconheça a persistência de classes antagónicas no socialismo, ignora que as relações na própria sociedade socialista (as relações herdadas do capitalismo que é necessário ir transformando até ao comunismo) constituem a base material para o surgimento de una nova burguesia e para a restauração capitalista. Isto não é uma questão menor. Se se concebe que o problema são simplesmente os representantes da antiga burguesia derrubada e da burguesia internacional, poderia parecer que uma solução directa e eficaz seria simplesmente acabar de uma ou outra forma com esses representantes: morto o cão, acaba-se com a raiva. Mas se se compreende que as próprias contradições do socialismo regeneram constantemente o perigo da restauração capitalista, que há uma luta constante entre o progresso rumo ao comunismo ou o regresso ao capitalismo e que não é possível «descer a meio do caminho» sem se regressar ao capitalismo, então vê-se que isto é um problema bastante mais complexo.
À luz disto, não é muito surpreendente que o PCP tenha afirmado que «é falso que [Estaline] resolvia as coisas de uma forma administrativa» , que se tenha apresentado como se fosse consequente com a posição de Mao, quando na realidade exprimia uma discrepância com a análise de Mao, que observou que «Na época de Estaline [os anos 1920], não havia mais nada em que se apoiar a não ser as massas. Por isso era pedido ao partido e às massas operárias e camponesas que se esforçassem o máximo para se mobilizarem. Posteriormente, quando a União Soviética já tinha alguma coisa, os seus dirigentes já não se apoiaram nas massas» .
Com base nesta compreensão errada do problema, o «Pensamento Gonzalo» do PCP propunha, por um lado, «a organização armada das massas, a milícia popular, que engolisse o exército». A necessidade de manter um exército profissional no socialismo, devido en grande parte ao cerco e à agressão imperialista, é uma contradição de grande importância no socialismo mas, como vimos, está longe de ser a única. Também é correcto salientar o desenvolvimento de milícias, mas isto não pode ser uma solução integral para este problema. De facto, os revolucionários na China promoviam as milícias e parte destas opuseram-se ao exército regular na altura do golpe de Estado, mas não puderam fazer nada contra a maior força, armamento, treino e disciplina das forças regulares. De uma forma mais profunda, simplesmente armar as massas não garante qual a linha que elas vão seguir: de facto muitas das massas armadas das milícias seguiram a corrente da nova linha revisionista no poder.
Desta proposta parcial, passou-se a propostas profundamente erradas e prejudiciais: a «militarização da sociedade»  e a ideia de que as contradições do socialismo se resolvem com «violência revolucionária»: «manteremos a continuação da revolução sob ditadura do proletariado com violência revolucionária através de revoluções culturais e ao comunismo só chegaremos com a violência revolucionária, e enquanto houver um lugar na Terra em que haja exploração acabaremos com ela com a violência revolucionária» . Em primeiro lugar, apresentar a Revolução Cultural como sendo essencialmente «violência revolucionária» é uma grosseira falsificação da teoria e da prática da Revolução Cultural, já que Mao insistiu repetidamente em não se resolver as contradições por meio da violência, o que só foi possível porque o proletariado ainda detinha o Poder, e a violência que de facto ocorreu foi contrária à linha de Mao e prejudicou o desenvolvimento da Revolução Cultural. Em vez de assumir francamente a divergência em relação a Mao, apresenta-se uma ideia oposta como se estivesse de acordo com a posição de Mao, um método errado que, como já mencionámos, reflecte a herança de tendências erradas anteriores no movimento comunista internacional para uma atitude dogmática e religiosa em relação ao Marxismo.
A violência revolucionária é, sem dúvida, necessária para se derrubar o capitalismo e estabelecer o socialismo, para defender os países socialistas das agressões do capitalismo-imperialismo, para restabelecer o socialismo depois de uma restauração capitalista e para derrotar as tentativas armadas de derrubar o estado socialista. Contudo, não pode ser o principal meio de resolução dos problemas da transição socialista, de simplesmente «cortar cabeças». Por um lado, a nova burguesia não é um alvo estático e inalterável nem facilmente distinguível. As forças que a constituem não falam abertamente a favor do capitalismo: são dirigentes do próprio partido comunista que persistem em defender uma linha que na realidade levará à restauração, em determinados momentos, alguns podem ser ganhos, pelo menos em parte, para a linha revolucionária e outros não, e na realidade a força relativa dessa linha e o facto de ter ou não a capacidade de usurpar o poder muda em relação à situação objectiva no mundo e no país. Por outro lado, o problema essencial, como vimos, não está nessa gente enquanto indivíduos mas numa linha que tem bases materiais na sociedade socialista. A experiência já mostrou demasiadamente que quando se retiram alguns dirigentes revisionistas, surgem outros, pelo que, além de se mobilizar as massas para derrubar os dirigentes revisionistas, é essencial trabalhar o problema de fundo elevando a capacidade das pessoas de distinguirem entre a linha revisionista e a comunista, bem como compreender a profunda necessidade e encontrar as formas adequadas de continuar a transforma as «quatro todas» até ao comunismo.
O uso da violência como forma principal de resolver estes problemas de linha, de consciência e de transformação das quatro todas é, de facto, prejudicial, como nos mostra a experiência negativa da União Soviética. Leva necessariamente a confundir contradições com o inimigo com contradições no seio do povo, já que pode haver e vai haver gente que se opõe às necessárias transformações socialistas sem que esteja a trabalhar activamente pelo derrube do socialismo, bem como muita gente que segue uma linha errada num dado momento que pode e deve ser ganha para a linha revolucionária. Nos dois casos, são contradições no seio do povo que devem ser tratadas com a luta ideológica e política e não com «violência revolucionária». Em contrapartida, tentativas armadas de derrubar o socialismo têm de ser desarticuladas. Por outro lado, o uso da violência como meio principal de resolver as contradições no socialismo «arrefecem o ambiente», pondo fim aos grandes debates, à dissensão e à luta entre as duas linhas que são essenciais tanto para se encontrar soluções correctas para os complexos problemas da transição socialista como para que cada vez mais gente desenvolva a capacidade de distinguir entre o comunismo e o revisionismo: entre a linha que proclama uma posição com uma linguagem marxista que objectivamente leva de volta ao capitalismo e a que luta pelos passos adequados à transição para o comunismo num momento dado, algo que não é muito fácil.
O PCP e o seu presidente, ou desconheciam ou rejeitaram a análise de Mao e dos seus seguidores sobre a complexidade desta transição e da necessidade de eliminar as «quatro todas». Na citação anterior, fala-se como se o comunismo fosse simplesmente uma questão de abolir a exploração. Mesmo Ainda que isso seja fundamental, a revolução socialista, com a expropriação da burguesia e a conversão dos meios de produção em propriedade de todo o povo e onde a propriedade colectiva basicamente elimina a exploração, mesmo que em certos momentos a linha revisionista vá expandindo as desigualdades da sociedade socialista em vez de as restringir, «cheira a exploração», como diziam os seguidores de Mao. Mas, como vimos, há um caminho muito mais longo (e todo um período histórico) a percorrer para se abolir as «quatro todas» em todo o mundo e se chegar ao comunismo que eles não têm em conta ao dizerem coisas francamente ridículas como «o Presidente Gonzalo (…) vai levar-nos ao Comunismo» .
Semelhante à forma como se propõem resolver as complexas contradições do socialismo através de um método aparentemente mais fácil mas fundamentalmente errado de impor as coisas através da violência, também se tentou resolver os problemas da luta entre as duas linhas no PCP através da subordinação de todo o Partido ao seu presidente Gonzalo, num profundo desvio do centralismo democrático e do principio de que o individuo (incluindo o presidente) se subordina ao colectivo e ao Partido. um dirigente revolucionário pode desempenhar um papel extremadamente importante para elevar a perspectiva de outros quando luta por uma compreensão que corresponde à realidade material e ao avanço da revolução comunista. Se não tivesse sido a luta de Lenine, não se teria aproveitado a crise revolucionária que originou a Revolução de Outubro, e Mao comentou que «na Revolução Cultural havia momentos, sobretudo no principio, em que eu era a única pessoa que partilhava a minha opinião». Contudo, este papel não se deve essencialmente a nenhuma qualidade pessoal do dirigente revolucionário mas à linha que defende: à sua compreensão dos problemas que a revolução comunista enfrenta e como resolvê-los correctamente. Cada indivíduo segue e aplica uma ou outra linha, mas um individuo enquanto tal não tem linhas, que na realidade são um produto de um processo colectivo de um partido ou do movimento internacional. Nalguns casos, os indivíduos podem conseguir sintetizar e concentrar elementos chave da ciência comunista, e em certos caso isso deve ser reconhecido, mas não há ninguém que não se possa enganar face aos problemas da revolução comunista ou mesmo adoptar «soluções» que na realidade vão contra o avanço dessa revolução. Por isso, entre outras razões, é essencial a direcção colectiva, a subordinação do individuo, incluindo o presidente do partido, ao colectivo e o mais vivo e crítico debate nesse colectivo.
Aparentemente, a prática profundamente errada em que os militantes do PCP juravam lealdade ao seu presidente Gonzalo foi parcialmente importante na lógica de que ele, enquanto pessoa, era a garantia, como era muitas vezes dito, da linha correcta e da vitória. Mas nenhuma pessoa, em si mesmo, pode ser a garantia de uma linha correcta: uma linha correcta é o produto de um processo de aplicação correcta do método científico do materialismo dialéctico para desenvolver concepções que reflictam ou quw basicamente reflictam a realidade material e a forma de a transformar. uma linha correcta ou basicamente correcta é essencial para obter a vitória, mas também não pode haver uma «garantia» da vitória já que as forças revolucionárias podem ser derrotadas, não devido sobretudo aos seus errores mas a uma correlação de forças desfavorável, e outros factores também podem intervir.
O que acontece com a detenção de Gonzalo? A mesma lógica errada de que ele é a garantia da linha correcta e da vitória leva a pensar que a guerra popular não pode continuar, já que ele, a garantia, não está presente, e é o próprio Gonzalo que apela à negociação do fim da guerra popular, e propõe uma análise errada, uma linha revisionista, face às dificuldades reais da sua captura e de outros dirigentes do partido, bem como às dificuldades da situação internacional.
Esta linha já causou bastantes danos no Peru e no mundo, mas estas formas metafísicas e mecânicas de abordar as contradições levam a coisas ainda piores ao lidarem com o problema de forjar uma nova sociedade. Como salientou Avakian sobre um caso diferente de núcleo sólido sem elasticidade: «Um exemplo negativo, extremamente negativo, de não compreender nem lidar correctamente com isto [a diversidade da sociedade socialista e como conviver com as camadas intermédias e transformá-las – OCR] viu-se na experiência de Pol Pot no Camboja (que não vou aqui tentar tratar de uma forma completa, apenas de uma sucinta), onde, em vez deste tipo de abordagem eles tinham uma toda uma abordagem que envolvia uma verdadeira ironia, bem como um verdadeiro desastre: tinham massas camponesas que não tinham passado por nenhuma verdadeira transformação radical da sua forma de pensar, apesar de certas mudanças das condições materiais; as massas camponesas, sobretudo nas bases de apoio que estabeleceram durante a guerra contra o governo de Lon Nol e os Estados Unidos (que instalaram e apoiaram esse regime), eram dirigidas por intelectuais que tinham um problema, um problema muito real de que já falei noutras conversas e textos: o fenómeno da educação numa base limitada (voltarei a falar deste ponto em breve, porque de facto é muito importante); e os Khmer Vermelhos, sob a direcção de Pol Pot, tomaram o resto da sociedade cambojana e tentaram a aplaná-la ao nível do campesinato, do campesinato com era então, supostamente para chegarem ao comunismo. Dizendo de uma forma muito suave, não captaram em nada a noção do núcleo sólido com muita elasticidade nem a noção do ‘pára-quedas’ [ou seja, da diversidade da sociedade socialista – OCR]. E isso levou a grandes desastres e, sim, a verdadeiros horrores» .
A linha de Gonzalo não foi igual à de Pol Pot, mas a orientação dele de «guerra popular até ao comunismo» também é uma expressão da forma de passar por  alto as complexas contradições da transição socialista para o comunismo e de pensar que um núcleo sólido sem nenhuma elasticidade pode simplesmente impor as suas soluções por cima da diversidade da sociedade socialista. Isto é insistir em repetir e aprofundar os erros do século XX e rejeitar e atirar para o lixo a essência da maior contribuição de Mao para a ciência comunista, a teoria da continuação da revolução no socialismo (e isto, ainda por cima, pretensamente em nome de «impor o Marxismo-Leninismo-Maoismo, principalmente o Maoismo»). Se aplicada, esta linha só pode levar à desgraça e não à emancipação.

8.    Elasticidade sem um núcleo sólido: «Avançar» até ao século XVIII, ou não há melhor comunismo que a democracia burguesa

Enquanto uns defendem um núcleo sólido sem nenhuma elasticidade, outros entusiasmam-se com a «elasticidade» ao redescobrirem a democracia eleitoral burguesa e rejeitarem a necessidade de um núcleo sólido que luta pelo comunismo, e em particular a necessidade da direcção institucionalizada do partido comunista no socialismo. É o caso do presidente Prachanda e de Baburam Bhattarai, dirigentes do Partido Comunista do Nepal (Maoista) [PCN(M)] – agora Partido Comunista Unificado do Nepal (Maoista) [PCUN(M)] – e da linha revisionista adoptada por esse partido na reunião do seu Comité Central de Outubro de 2005.
A nova linha revisionista do PCN(M) ignora por completo as verdadeiras contradições da transição socialista para o comunismo e a abolição das «quatro todas», que já examinámos, e reduz o problema essencial no socialismo ao «burocratismo». Com isto substituem uma análise seria das reais contradições da sociedade socialista com o lugar comum da típica análise burguesa, social-democrata e revisionista que não descobre outro problema que não o do «burocratismo». Por exemplo: «Quando a democracia não cria raízes em todas as classes oprimidas, surgem tendências burocráticas no partido, no Estado e na sociedade…»  Ainda que tenha havido, e haverá no futuro, problemas de métodos burocráticos de trabalho, como vimos, o problema da luta de classes no socialismo é muito mais profundo que isto.
Isto anda de mão dada com uma profunda distorção da experiência socialista, ignorando a luta das massas sob a direcção dos comunistas revolucionários para continuarem a avançar rumo ao comunismo, sobretudo na Revolução Cultural na China, contra os seguidores da via capitalista entre outros dirigentes do partido que acabaram por consegui fazer um golpe de Estado, prender e assassinar os revolucionários e restaurar o capitalismo. Em vez desta realidade, oferecem-nos uma historia inventada da lenta e gradual degeneração burocrática do partido e do estado proletário no seu conjunto, sem nenhuma distinção entre comunistas e revisionistas nem entre o socialismo e o capitalismo: «no passado, os estados proletários, em vez de servirem as massas e de agirem como instrumentos de revolução contínua, converteram-se em senhores do povo e instrumentos da contra-revolução, e em vez de se extinguirem transformaram-se em enormes burocracias totalitárias e em instrumentos de repressão» .
Esta «análise» de «burocracias totalitárias» é simplesmente a crítica burguesa do socialismo, difundida ininterruptamente por milhares de meios de comunicação transplantada para uma literatura pretensamente comunista. Portanto, tal como Lenine comentou sobre a crítica revisionista das ideias fundamentais do Marxismo desses dias, «não é de estranhar que a ‘nova’ tendência ‘crítica’ na social-democracia tenha surgido, de repente, completamente acabada, tal como Minerva da cabeça de Júpiter. Pelo seu conteúdo, esta tendência não teve de se desenvolver nem de se formar, foi transplantada directamente da literatura burguesa para a literatura socialista» . Ou como dizemos nesta época dos computadores, «copiar e colar».
Ao redefinir o problema da transição socialista para o comunismo como «burocratismo» em vez da abolição das «quatro todas» em todo o mundo, e ao falsificar a verdadeira luta de classes nos primeiros países socialistas, o PCN(M) chega à conclusão que nada tem de novo de que a «solução» é a «democracia» e em particular a «disputa multipartidária»: «Se não tivesse de vencer numa disputa entre as massas para permanecer na direcção do poder, haveria uma base material em que a relação entre o partido e as massas se torna formal e mecânica, e portanto uma oportunidade para o surgimento da burocracia no interior do próprio partido (…) Por isso, consideramos que a disputa multipartidária pelo governo popular e, além disso, o direito do povo a supervisionar, controlar e intervir, incluindo destituir do poder os seus representantes, constitui uma espécie de gancho nas mãos das massas que pode arrastar os camaradas que erram para o seu campo» .
Dizem que sem esta disputa multipartidária «haveria uma base material» para a degeneração burocrática, com a implicação de que com essa disputa já não há essa base, fechando os olhos à base material para a restauração capitalista nas próprias relações, desigualdades e ideias da sociedade socialista, herdadas do capitalismo, bem como na feroz luta durante todo o período socialista entre avançar mais rumo ao comunismo ou regressar ao capitalismo. À força de ignorarem o verdadeiro problema, encontram a «solução» na «disputa multipartidária», que não é outra coisa senão a democracia eleitoral burguesa que em nenhum caso na história serviu para arrastar ninguém no Poder para o «campo» das massas e antes tem servido muito para arrastar as massas e os comunistas que se vão degenerando em revisionistas para o «campo» da burguesia. e isto tem sido demonstrado uma vez mais na sua plenitude pelo PCN(M) ao por fim à guerra popular que dirigiu durante 10 anos, ao entregar as suas armas, ao desmantelar as bases de apoio, ao participar nas eleições e ao entrar e encabeçar um governo juntamente com vários partidos da grande burguesia aliados ao imperialismo. Aí oferecem-nos o espectáculo de vermos pretensos comunistas a mandar soldados nepaleses lutar ao lado do imperialismo norte-americano na sua guerra de agressão no Afeganistão ao mesmo tempo que desmantelam a revolução agrária antes impulsionada pelo partido, devolvendo as terras em vários lugares aos antigos grandes agrários. É este o fruto amargo da «disputa multipartidária».
Como sublinhou Avakian na sua profunda crítica de essencialmente a mesma linha proposta na sua altura por K. Venu, «O seu ‘modelo’, onde o ‘direito a governar’ do partido comunista ‘deve basear-se estritamente no apoio eleitoral ganho pelo seu programa, tal como qualquer outro programa’, levaria, no melhor dos casos,  a uma situação em que centros rivais de poder, com os respectivos programa, competiriam pelo voto das massas. O resultado disto (uma vez mais, no melhor dos casos) seria um governo de «coligação», onde «socialistas» e «comunistas» de todo o tipo se uniriam a representantes de tendências «democráticas» mais abertamente burguesas e pequeno-burguesas, e onde entre acordos e pactos se comprometeriam os interesses fundamentais das massas e não se faria nenhuma transformação radical da sociedade (e onde qualquer tentativa de a fazer seria rápida e eficazmente reprimida pelo governo de «coligação»). Será que não houve experiência suficiente, para não dizer demasiada, no mundo que ilustre isto?»  Avakian menciona, por exemplo a experiência da Indonésia, onde este tipo de parlamentarismo burguês levou ao massacre de centenas de milhares de comunistas e outras pessoas. A experiência recente no Nepal também tem mostrado claramente a certeza da sua análise, já que os acordos e pactos com os partidos burgueses do Nepal têm levado a sacrificar os interesses revolucionários fundamentais das massas por um prato de lentilhas de lugares no estado burguês.
Actualmente, grande parte da população do planeta vive em «democracias» com disputa eleitoral entre diferentes partidos e onde se comprova ano após ano que não servem. Onde, no mundo e na historia, as eleições organizadas segundo o modelo burguês resultaram na implementação dos verdadeiros interesses das massas, e não em todo o tipo de enganos, falsas ilusões e repressão? Em lado nenhum. Onde se conseguiu uma maior democracia para as massas populares, uma maior possibilidade de transformar a sociedade na direcção de eliminar todo o tipo de desigualdades sociais, uma maior possibilidade de participar na administração do estado, uma maior expressão das opiniões das massas, que não nas experiências socialistas dirigidas por um partido comunista, e sobretudo na experiência mais avançada até agora, a Revolução Cultural? Em parte nenhuma.
A conquista do poder pelo proletariado é apenas o primeiro passo numa larga e difícil luta que enfrenta o cerco de países imperialistas determinados a esmagá-la, que enfrenta as trapaças de uma nova burguesia que fala em nome de um pretenso «comunismo», que enfrenta a complexa luta pelo avanço da revolução mundial ao mesmo tempo que vai eliminando as «quatro todas», envolvendo e capacitando cada vez maiores sectores das massas a realmente governarem e transformarem a nova sociedade, em vez de meterem papelinhos numa urna para «decidirem» que grupo de impostores as vai esmagar e oprimir a partir do governo durante os próximos 4 ou 6 anos. Face a estes desafios, não é possível prescindir da direcção do partido comunista no socialismo, não é possível prescindir de um núcleo sólido que lute pelo comunismo, ainda que esse núcleo, tal como argumenta Avakian, tenha de estimular e dirigir, no sentido mais lato da palavra, uma elasticidade ainda maior que o melhor do passado. Isto incluí um maior papel de eleições em que se apresentam vários candidatos que representam forças e posições distintas, e a orientação de exercer a direcção comunista fundamentalmente através da luta ideológica e política e não sobretudo através do monopólio das posições de autoridade. Contudo, não se vai por a votação a «opção» de regressar ao pesadelo capitalista que ainda predomina no mundo e que faz todo o possível por minar e derrubar o socialismo, depois de tanto sacrifício do povo para se emancipar desse pesadelo. Propostas deste tipo são francamente criminosas.
A «democracia do século XXI» do PCN(M) é apenas una reedição do logro da democracia «pura» «acima das classes», ou seja, a teoria da democracia burguesa reciclada dos teóricos burgueses do século XVIII. Como sublinhou Avakian, «Num mundo de profundas divisões de classe e grandes desigualdades sociais, falar em ‘democracia’ – sem referir a natureza de classe dessa democracia e que classe ela serve – não faz sentido ou ainda pior. Enquanto a sociedade estiver dividida em classes não pode haver ‘democracia para todos’: uma ou outra classe dominará, apoiando e promovendo o tipo de democracia que servir os seus interesses e objectivos. A questão é: que classe dominará e se o seu domínio, e o seu sistema de democracia, servirá a manutenção, ou a eventual abolição, das divisões de classe e das correspondentes relações de exploração, opressão e desigualdade»
Tal como refere o Manifesto do PCR,EUA, o que as duas «tendências erradas e similares têm em comum [é] estarem apegadas, ou estarem a recuar para, modelos do passado, de uma forma ou de outra (mesmo que os modelos específicos possam diferir): seja teimando dogmaticamente na experiência passada da primeira etapa da revolução comunista – ou, em vez disso, numa compreensão incompleta, unilateral e, no fim de contas, errada dela – ou recuando inteiramente para a era passada da revolução burguesa e dos seus princípios: regressando para o que, em essência, eram as teorias da democracia (burguesa) do século XVIII, sob o disfarce, ou em nome, do «comunismo do século XXI», comparando na realidade esse «comunismo do século XXI» a uma democracia que é supostamente «pura» ou «sem classes» – uma democracia que, na realidade, enquanto existirem classes, apenas pode significar democracia burguesa e ditadura burguesa» .
Não precisamos do núcleo sólido sem elasticidade que «impõe» uma concepção falsificada, e em última análise revisionista, do «comunismo», nem também da elasticidade sem núcleo sólido que abraça a democracia burguesa e leva ao reforço da ditadura burguesa. Também não nos oferecem nada os dogmáticos preguiçosos tipo PC(M)A que não só se contentam em não oferecerem nada de novo depois de quase 40 anos, como também nos avisam dos perigos de nos atrevermos a desenvolver algo de novo. Necessitamos do núcleo sólido com muita elasticidade, necessitamos da nova síntese, que nos abre novas vistas tanto de uma sociedade nova e libertadora em que a grande maioria queira viver como da forma de avançar mais e melhor na transição histórica mundial para o comunismo. Esta é a teoria comunista que poderá e deverá guiar a nova vaga de revoluções comunistas ou então não haverá essa vaga.

9.    No haverá emancipação para ninguém sem o se esmagar o Estado burguês: lições do Nepal

O outro aspecto fundamental do revisionismo de Prachanda e do PCN(M) desde a adopção da sua nova linha em 2005 é a substituição da linha de desenvolver a guerra popular para tomar o poder, terminar a revolução de nova democracia e passar à revolução socialista, pela suposta «táctica» de lutar por uma «república democrática» e um «estado transitório» em conjunto com vários partidos – que o próprio PCN(M) tinha caracterizado como burgueses e pró-imperialistas – para «restruturar o estado», justificando isto com a necessidade de lutar contra a monarquia, que já tinha sido deposta. Foi esta a linha que guiou o acordo de paz, o fim da guerra popular, a proposta de fusão do exército revolucionário com o exército reaccionário, e a participação do PCN(M) nas eleições, nas quais obtiveram um grande número de votos e formaram um governo com os partidos burgueses.
O Partido Comunista Revolucionário, EUA, criticou profundamente esta nova linha revisionista, que já era evidente nos textos de Bhattarai, numa carta enviada ao PCN(M) em Outubro de 2005, ou seja, numa altura em que o PCUN(M) ainda estava a adoptar oficialmente essa linha e antes que as suas nefastas consequencias práticas fossem tão evidentes . O PCN(M) rejeitou a crítica do PCR,EUA, dizendo que era apenas uma repetição do «ABC do Marxismo», recusou-se a responder às suas cartas posteriores e prosseguiu no seu caminho rumo ao pântano revisionista em que actualmente se encontra. Além das questões da transição socialista que já aflorámos, a questão central desta luta foi saber se o objectivo imediato era «restruturar o estado» ou destruí-lo, reduzi-lo a pó.
Como salienta uma das cartas do PCR,EUA:

Uma das expressões surge repetidamente nos textos do PCN(M) como leitmotiv é o apelo à «restruturação do estado». Na realidade, esta expressão por si só resume claramente o erro do programa político do PCN(M). Vale a pena rever o muito difamado «ABC do Marxismo» sobre isto. Ao fazer o balanço da experiência das diversas revoluções na Europa no século XIX, Marx fez a profunda observação de que «todas as revoluções aperfeiçoaram esta máquina, em vez de destruí-la» (ênfase nosso). Que queria Marx dizer com isto?
Em particular, referia-se ao facto de as varias vagas da revolução na Europa e sobretudo em França (1789, 1830 e 1848) tinham resultado na transformação da máquina do estado de forma a que ela ficasse de acordo com a base económica capitalista e «aperfeiçoasse» a sua capacidade de cumprir o seu papel de imposição da ditadura burguesa. É muito claro que Marx se está a referir à abolição da monarquia em grande parte da Europa e à generalização da democracia burguesa como «aperfeiçoamento» da ditadura capitalista que o estado representa. Mais tarde, Marx retirou especificamente a lição da Comuna, que não foi, quanto à sua essência, uma tentativa de aperfeiçoar mais o aparelho de estado burguês em França, mas uma primeira tentativa, ainda que titubeante, por vezes indecisa, e por fim derrotada, de destruir a máquina de estado burguesa e substituí-la por um estado diferente que surgiria da luta revolucionária proletária.
O que está em jogo no actual debate é saber se os 10 anos de guerra popular, depois de tudo, serviram para destruir a máquina de estado reaccionária ou aperfeiçoá-la. Para falar sem rodeios, se o resultado da guerra for a consolidação de una república burguesa, o resultado trágico é que o sacrifício do povo não terá servido para estabelecer uma forma de domínio proletário mas apenas para «modernizar» e «aperfeiçoar» o próprio instrumento que o mantêm oprimido .

Este «resultado trágico» é precisamente o que está a acontecer hoje em dia no Nepal, resultado da adopção de uma linha revisionista em relação ao socialismo e ao comunismo, como vimos, e resultado, a ele intimamente relacionado, da adopção de uma linha revisionista de luta pela «restruturação» ou aperfeiçoamento do antigo estado, em vez de prosseguir na luta por destruí-lo.
A justa crítica comunista do PCR,EUA, recebeu ataques de «esquerda» e de direita, sem que se tentasse tratar ou refutar o conteúdo da sua posição.
Por um lado, alguns atacaram o PCN(M) antes do desvio revisionista na sua linha, por ele aplicar algumas tácticas de cessar fogo, insistindo, em nome de um pretenso «Maoismo» – na realidade, um infantilismo de «esquerda» – que todos os cessar fogos e todas as negociações equivalem a traição, sem terem suficiente coerência de princípios para chamarem traidor a Mao, que estabeleceu um cessar fogo e negociou com o Kuomintang em Tchuntchim. Nessa altura, ele salientou que, quando se combate o inimigo, «O ‘ripostar taco-a-taco’ é algo que depende da situação. Às vezes, não ir negociar é responder taco-a-taco; mas, às vezes, ir negociar também é ripostar taco-a-taco» . Mao explica claramente que as negociações tinham o objectivo político de isolar ainda mais o Kuomintang e assim preparar a guerra civil que acabou por levar à vitória da revolução chinesa. Para os comunistas, a questão de analisar as tácticas de cessar fogo ou de negociações é saber se estas servem para fortalecer a luta armada revolucionária e por fim destruir o estado burguês o se levam à liquidação da guerra popular necessária para o reduzir a pó. As negociações de Tchuntchim tinham claramente o objectivo e tiveram o efeito de fortalecer a guerra popular e a vitória da revolução. Ainda que não tenhamos investigado o suficiente para avaliarmos cada uma das tácticas do PCN(M) antes da sua mudança de linha, torna-se claro que as tácticas de cessar fogo tinham o objectivo político de isolar o inimigo e potenciar a guerra popular. Com o desvio revisionista e a mudança de objectivos estratégicos do PCN(M), todas as suas tácticas já servem fins que não saem dos limites sufocantes e mortíferos do sistema capitalista-imperialista mundial. Da mesma forma, o «acordo de paz» proposto pela linha oportunista de direita (LOD) no Peru era parte de toda uma linha revisionista, como na altura os camaradas do agora Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista) correctamente analisaram .
Vale a pena mencionar que a abordagem simplista e dogmática que temos estado a comentar também fez estragos no caso do Peru. Foi, sem dúvida, uma situação difícil, com a detenção do Presidente Gonzalo, e depois a proposta de um acordo de paz que saiu da prisão atribuído a ele, mas inicialmente sem provas fiáveis de que ele era, de facto, o autor. Contudo, a resposta dos dirigentes decididos a continuar a guerra popular de simplesmente denunciarem isto como um «embuste» sem responderem com argumentos nem desenvolverem a luta entre as duas linhas contra a LOD (recorrendo, pelo menos nalgumas versões, ao mesmo argumento de que todas as negociações são uma traição e que Gonzalo «não podia» ter feito isso, bem como o estranho argumento de que desenvolver a luta entre as duas linhas contra a LOD seria «conciliar») deixou o partido e as massas desarmadas politicamente, enquanto essa linha oportunista de direita desenvolvia documento atrás de documento de argumentação política e havia cada vez mais indícios de que Gonzalo foi, efectivamente, o autor da proposta dos acordos de paz e da LOD.
Por outro lado, mesmo alguns dos protagonistas dos ataques infantis acima mencionados, fazendo gala da sua falta de princípios, «suspenderam o julgamento» face aos «êxitos» eleitorais do PCUN(M) e tentam uma unidade sem princípios com esse partido agora dirigido por uma linha revisionista. O impacto prático do revisionismo provocou protestos e oposição no interior do PCUN(M) mas, infelizmente, até agora, que saibamos, esta oposição não passou da crítica a algumas tácticas, em vez de repudiar, criticar e lutar profundamente contra a linha revisionista adoptada em 2005. Para falar francamente, ainda que Prachanda e outros falem em preparar a «insurreição» e mesmo que chegarem a levar a cabo de novo algum tipo de luta armada, enquanto isso estiver a servir a linha de «restruturação» do estado reaccionário e de luta por um pretenso socialismo de «disputa multipartidária» democrático-burguesa, não vai resultar em nenhuma libertação de ninguém.

10.    Unidade para a emancipação da humanidade ou unidade sem princípios para ter «força material»?

Temos vindo a observar de vários ângulos, tal como também refere o Manifesto do PCR,EUA, que as duas tendências erradas que se opõem à nova síntese – uma vez mais, «a de se teimar religiosamente em todas as anteriores experiências e na teoria e no método a elas associados [e a] de (em essência, se não mesmo em palavras) se atirar com tudo isso fora»  – ainda que pareçam ser tendências tão distintas e divergentes entre si, na realidade têm vários traços em comum. Algumas organizações participantes no Movimento Revolucionário Internacionalista (MRI), apressaram-se a ilustrar isto na prática ao tentarem unir as duas correntes erradas (e também misturas eclécticas das duas) numa nova organização internacional «marxista-leninista-maoista» à margem do MRI e em oposição à nova síntese de Bob Avakian.
O primeiro apelo da parte de algumas forças no MRI para se «criar uma nova unidade do movimento comunista com base no Marxismo-Leninismo-Maoismo e construir a organização internacional necessária» apareceu no 1° de Maio de 2011 com as assinaturas do Partido Comunista Maoista-Itália, Partido Comunista Unificado do Nepal (Maoista), Partido Comunista da Índia (ML) Naxalbari, Partido Comunista Maoista-Turquía e Curdistão do Norte e cinco organizações que não participam no MRI. Dizem-nos, entre outras coisas que «No Nepal, 10 anos de guerra popular criaram as condições para o avanço da Revolução nepalesa, que agora está numa difícil encruzilhada e deve ser apoiada face à contra-revolução levada a cabo pelos inimigos internos e externos, bem como contra os reformistas que querem corroê-la pelo interior» .
Eis que falam em 2011 da «guerra popular» no Nepal com uma vaga referência ao «reformismo» sem mencionarem que ela foi liquidada em 2006 pelos acordos de paz com a linha revisionista no comando do PCUN(M), que também aparece como signatário do documento. Isto aconteceu dois anos depois de se terem tornadas públicas as cartas do Partido Comunista Revolucionário,EUA, que criticam o desvio revisionista do PCUN(M) e a única carta de resposta do partido do Nepal, e todas elas os participantes no MRI certamente receberam muito antes. Num novo documento no 1° de Maio de 2012, assinada pelo Partido Comunista Maoista-Itália (PCm-Itália), pelo Partido Comunista (Maoista) do Afeganistão e pelo Partido Comunista da Índia (Marxista-Leninista) Naxalbari [PCI(ML)N], mencionam agora o revisionismo de Prachanda e Bhattarai e apelam aos maoistas no PCUN(M) a que se rebelem contra ele, sem nada dizerem sobre o conteúdo desse revisionismo, sobre a sua linha de «restruturar» em vez de esmagar o antigo estado e a sua linha revisionista sobre o socialismo de «disputa multipartidária» e democracia burguesa. Assim fazem um fraco favor aos camaradas do PCUN(M) que se opõem à linha de Prachanda, os quais infelizmente até agora se têm limitado a propor outras tácticas em vez de criticarem o fundo do desvio oportunista na linha do partido a partir de 2005 .
Porque é que primeiro encobrem a liquidação da guerra popular no Nepal pela linha revisionista no comando do partido e depois nos oferecem o rótulo de «revisionista» sem falarem, nem que fosse brevemente, do conteúdo dessa linha? O Partido Comunista Maoista-Itália (PCm-Itália), que tem desempenhado um papel importante nestes esforços, deu-nos uma pista ao dizer que «Não precisamos de unir os partidos na base de um documento mas sim de criar um centro internacional que seja uma força material» e «Qualquer que seja o ponto de vista de cada um sobre o ‘revisionismo’ de Prachanda, não se pode criar uma organização internacional sem o PCUN(M)» . Deveríamos agradecer ao PCm-Itália por esta formulação tão franca da unidade sem princípios que caracteriza todo este projecto. A unidade «com base num documento» teria pelo menos a possibilidade de alguma unidade na base de princípios partilhados. Mas isto é considerado desnecessário. O que interessa é ter «força material» e como o PCUN(M) tem «força material», mesmo que siga una linha revisionista, deve estar nesta «nova unidade do movimento comunista».
E Isto da parte de gente que se chama maoista, quando foi Mao que tanto insistiu em que a correcção ou incorrecção da linha ideológica e política decide tudo. A linha, ou seja, a compreensão de como é o mundo e de como transformá-lo, de qual é o problema e qual é a solução, determina se uma organização realmente pode contribuir para fazer avançar a revolução comunista ou se de facto vai transformar-se num obstáculo revisionista à mesma. Não há dúvida que o PCUN(M) tem força material, mas é uma força material que agora está ao serviço de uma linha que objectivamente se opõe à emancipação das massas do Nepal e do mundo, que se opõe à destruição do velho estado e ao estabelecimento de um verdadeiro socialismo.
E isto interessa-nos? Interessa se a compreensão que se tenha do mundo e de como transformá-lo poderá na realidade levar à emancipação ou se corresponde à manutenção das massas sempre escravizadas por este sistema? As formulações do PCm-Itália acima citadas dizem-nos essencialmente que isso não lhes interessa, que o que lhes interessa é terem «força material» e influencia agora, sem se preocuparem com o problema de para que objectivo.
Se queremos realmente dirigir a luta das massas para se emanciparem da miséria deste sistema, temos de nos preocupar em primeiro lugar com estabelecer e unir os comunistas em torno de uma linha que realmente corresponda ao mundo material e que realmente possa guiar uma revolução que liberte o povo, e demarcar das falsas soluções que, mesmo que se autoproclamem de comunistas, como a linha revisionista do PCUN(M), na realidade representam uma traição às massas e à revolução. Ou como indicou Lenine: «antes de nos unirmos e para nos unirmos é necessário começar por delimitar os campos de luta, resoluta e definitivamente» .
Foi precisamente esta a abordagem que se aplicou para se formar o Movimento Revolucionário Internacionalista (MRI). Estabeleceu-se na Declaração do MRI uma base de unidade em torno de princípios fundamentais e demarcou-se das principais formas de revisionismo, e uniu-se os diversos partidos e organizações que aceitaram esses princípios, a que se acrescentou mais tarde o documento Viva o Marxismo-Leninismo-Maoismo! Isto é proceder na base de princípios, motivado pela forma de realmente chegar à emancipação.
O fim de uma etapa na revolução comunista mundial e o inicio de outra e novas mudanças e vitórias no mundo neste contexto têm requerido e requerem que haja avanços na base relativa de unidade atingida nos documentos fundamentais do MRI. Por outro lado, acentuaram-se as divergências no interior do MRI que se exprimiram agudamente em particular em torno dos acontecimentos no Peru e no Nepal, e agora em torno da nova síntese. Apelou-se, exortou-se muitas vezes a que os partidos e organizações escrevessem e debatessem estas divergências, com uma resposta muito reduzida. Em particular, Avakian apelou varias vezes a que se comentasse a nova síntese e a que os que estivessem contra fizessem una crítica do seu conteúdo. Essa crítica, na base de princípios, fosse correcta ou errada, iria contribuir para o debate para clarificar o essencial: uma compreensão mais profunda e correcta da forma de entender o mundo e de o transformar e, com base nisso, a capacidade de o conseguir fazer na prática. A resposta a este pedido, na maior parte das vezes, foi ou o silêncio ou uma série de ataques pessoais, falsificações e calúnias contra a pessoa de Bob Avakian por atrever-se a propor uma forma de avançar mais e melhor na emancipação do povo e pedir que outros opinem sobre o conteúdo dessa proposta, seja a favor ou contra. Outras organizações do MRI, como o Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista), que manifestaram a favor da nova síntese, também tiveram que aguentar uma barragem de ataques pessoais e falsificações das suas posições, como se pode constatar no documento do PC(M) do Afeganistão antes citado.
A este respeito, temos de insistir em que o debate e a luta entre as duas linhas, mesmo quando esta se torna muito aguda, são imprescindíveis e contribuem para clarificar o que é que corresponde à realidade e aos interesses das massas e o que não, sempre e quando se centrem na luta na base de princípios, sobre as «grandes questões» de como fazer avançar a revolução proletária e se tenha em conta a verdadeira posição e os melhores argumentos do adversário. Por sua vez, os métodos de «luta» baseados em falsificar ou inventar supostas posições do adversário, em fábulas e mexericos de quem supostamente fez o quê a quem e em ataques e calúnias pessoais são extremadamente prejudiciais: escondem e ofuscam as questões de princípio em debate, desmoralizam as massas ou educam-nas nos mesmos métodos de desvalorização e calúnia que a burguesia utiliza e objectivamente ajudam o inimigo de classe, facilitando assim os seus ataques aos dirigentes revolucionários, que podem ser mascarados como «broncas entre os revolucionários». São métodos de luta oportunistas que todos os revolucionários devem repudiar e criticar.
Face às divergências de principio no MRI, o PCm-Itália, o PC(M)A e o PCI(ML)N propõem a formação de outra organização internacional de «comunistas MLM» sem resolverem nenhuma das questões em debate e sem clarificarem a base de unidade de princípios desta nova organização. Simplesmente declaram que «Para construir esta nova organização internacional devemos romper com o revisionismo em todos os seus aspectos e particularmente com aqueles que levaram à actual crise e colapso do MRI, ou seja, a ‘nova síntese’ pós m-l-m de Bob Avakian do Partido Comunista Revolucionário,EUA, e a linha revisionista estabelecida por Prachanda/Bhattarai no PCUN(M)» .
Já vimos que, pelo menos para o PCm-Itália, «romper com o revisionismo» de Prachanda não quer necessariamente dizer que o PCUN(M), guiado por essa linha desde 2005, não se encaixe na sua nova «organização internacional de comunistas MLM», e o PC(M)A assegura-nos que «Só passaram quatro anos desde a derrota final – ou da fase final da vitória que se aproxima no Nepal (…)» . Esta afirmação é pouco menos que incrível: Não tomam uma posição! O fim da guerra popular devido à linha revisionista adoptada pelo PCUN(M) poderá representar a «derrota final» ou talvez pelo contrario é a «fase final da vitória que se aproxima no Nepal». Falam na «linha revisionista estabelecida por Prachanda/Bhattarai no PCUN(M)» ao mesmo tempo que «suspendem o julgamento» e «esperam para ver» se o desenlace das políticas adoptadas com base nessa linha representam a «derrota definitiva» ou «a fase final da vitória que se aproxima no Nepal». Na realidade, o que é preciso do ponto de vista do comunismo e do internacionalismo é lutar para que os camaradas no Nepal (bem como os comunistas em todo o mundo) repudiem e critiquem a fundo a linha revisionista adoptada pelo PCUN(M) em 2005, tal como o tem feito o PCR,EUA, desde então. Por seu lado, a forma de actuar do PCm-Itália e do PC(M)A nesta questão de tanta importância para o MRI, o movimento comunista internacional e o povo do Nepal é outra indicação da falta de princípios do seu projecto de organização internacional «MLM» .
Ainda mais importante e mais indignante, rotulam de «revisionista» a nova síntese de Bob Avakian e tratam de dividir o MRI, apelando publicamente à criação de outra organização internacional, sem terem feito nenhuma crítica do conteúdo da nova síntese. Isto é completamente o oposto do método comunista que se deve aplicar face a divergências de linha num partido ou organização comunista internacional. Com o método comunista correcto, analisa-se a fundo a outra posição, demonstra-se com argumentos em que sentido não corresponde à realidade e ao avanço rumo ao comunismo e luta-se, sobre essa base, por unir todos os que possam ser unidos em torno de uma linha mais correcta. Só na base de uma crítica argumentada e de uma luta de princípios é correcto caracterizar a outra posição como revisionista e só quando se leva a luta entre as duas linhas até ao fim é adequado tomar medidas organizativas, se se tiver comprovado que a outra linha de facto se opõe ao avanço revolucionário e os seus apoiantes não podem ser ganhos. É crucial proceder desta forma porque só assim se clarifica uma compreensão mais correcta dos problemas objectivos que a outra posição trata de uma forma errada e só assim se une todos os que for possível unir em torno de uma linha correcta. Este foi o método aplicado, por exemplo, na luta de Marx com os anarquistas, na luta de Lenine com o revisionismo na II Internacional e na luta de Mao com o revisionismo de Khruschov e dos seguidores da via capitalista na China. É o método que o PCR,EUA, e outros, têm lutado por aplicar à luta entre as duas linhas no Partido Comunista do Peru, bem como na recente luta entre as duas linhas no Nepal. É o método que está resumido nos princípios de: «Praticar o Marxismo e não o revisionismo; unir e não dividir; ser franco e honrado e não urdir intrigas nem conspirações» .
Como temos vindo a demonstrar com base na análise dos documentos do PC(M)A e outros, os «reorganizadores» não estão a aplicar o Marxismo e, como consequencia, trabalham para a cisão do MRI e recorrem a desvalorizações pessoais, mexericos e rumores que enchem as páginas de Maoist Road/Vía Maoísta, em vez de desenvolver a luta entre as duas linhas sobre as questões chave abordadas pela nova síntese. São métodos muito nefastos desprovidos de princípios que devem ser criticados e repudiados por todos os comunistas, independentemente da posição que tenha sobre a nova síntese de Bob Avakian.
Para cúmulo, ao tentarem dividir o MRI, tentam atribuir a Avakian a culpa da «crise e colapso» do MRI. A actual crise do MRI não foi provocada pela nova síntese de Bob Avakian. Surge devido à luta entre as duas linhas face aos problemas objectivos da luta de classes e, em particular, à negativa das linhas opostas à nova síntese a envolverem-se num debate de princípios sobre esses problemas. Ocorre no contexto da necessidade objectiva de desenvolver a teoria e a prática comunistas face à restauração do capitalismo, ao fim da primeira etapa, às novas condiciones e às exigências da nova etapa da revolução comunista. A tendência dogmática, reflectida por exemplo nas posições do PC(M)A ou sob outra forma nalgumas das formulações do «Pensamento Gonzalo» que aqui temos vindo a examinar, nega que exista esta necessidade objectiva, refugiando-se numa versão falsificada do «Marxismo-Leninismo-Maoismo» que ignora ou falsifica a maior contribuição de Mao e põe de lado a essência revolucionária e científica do comunismo. Outros, como a linha ao comando do PCUN(M), em nome das novas condições, quanto ao essencial atacam e põem de lado toda a experiência anterior do socialismo como sendo sobretudo negativa, apresentando a teoria democrática da burguesia do século XVIII como sendo o novo comunismo do século XXI.
Estas tendências multiformes e erradas encontraram um ponto de «unidade» na oposição à nova síntese de Bob Avakian, que ela sim colocou-se à altura da necessidade objectiva de desenvolver mais a teoria comunista e criou um novo quadro teórico do comunismo que reforça os seus fundamentos científicos. O problema não está apenas na sua oposição ao que objectivamente representa uma grande esperança para as massas oprimidas e para a revolução comunista em todo o mundo, mas na sua negativa a debaterem e a argumentarem com seriedade a sua oposição, bem como os métodos de falsificação, intriga e divisão que têm utilizado. Se aqui nos temos ocupado sobretudo das posições do PC(M)A, não é porque sejam o pior exemplo disto, mas precisamente porque pelo menos responderam com alguma coisa, ainda que não tenham chegado a criticar o conteúdo da nova síntese. Em vez de levarem a luta entre as duas linhas até ao fim, estas forças preferiram tentar liquidar e dividir sem mais delongas o MRI e formar uma outra organização sem sequer especificarem a sua base de unidade ideológica e política para além de um pretenso «Marxismo-Leninismo-Maoismo» que tenta conciliar posições opostas sobre o socialismo, o estado, a guerra popular e outras questões.

11.    Ciência ou pragmatismo?

Embora estas forças tentem evitar tomar una posição consequente sobre as grandes questões colocadas pelo fim de uma etapa e o início de outra, todos as temos de enfrentar, são inevitáveis, fazem parte da situação objectiva que enfrentamos. Basta ir falar com as pessoas sobre o comunismo para nos darmos conta do desencanto ou rejeição do comunismo da parte de muita gente, incluindo muita gente progressista e revolucionária, devido à ofensiva anticomunista do inimigo aproveitando o facto material de que as primeiras experiências socialistas acabaram por ser derrotadas. Não será possível combater com verdade e êxito essa ofensiva anticomunista sem se fazer um balanço profundo das lições da primeira etapa mas, ainda mais importante que isso, sem as respostas adequadas a estas questões profundas da revolução proletária não será possível sair deste sistema reaccionário.
Os organizadores desta nova organização internacional «comunista» imaginam que poderão evitar estes problemas espinhosos atraindo as pessoas com a «força material» do movimento, vangloriando-se dos seus «êxitos práticos» reais ou imaginários. Na perspectiva deles, tão francamente expressa pela citação acima referida do PCm-Itália, o importante é ter «força material», atrair as pessoas, não interessa para que linha nem para que objectivo. É de extrema importância desenvolver a força material e ganhar toda a gente possível para uma linha que realmente possa resolver os problemas objectivos de como fazer avançar a revolução comunista mundial. Atrair as pessoas para uma organização que não tem nem acha necessário desenvolver verdadeiras soluções para estes problemas ao nível da teoria é, independentemente das intenções subjectivas de quem o faça, uma fraude cruel, que promete a emancipação mas não pode sair dos sufocantes limites deste sistema de opressão. Esta unidade sem princípios, a ideia de que é possível esquivarem-se à necessidade de encontrar soluções para os problemas colocados pela primeira etapa da revolução comunista e o afã de atrair pessoas pela «força material» real ou imaginária do movimento são expressões do pragmatismo, a filosofia burguesa que diz que o que interessa é o que «funciona», o que dá resultados práticos imediatos aparentemente favoráveis, e que não interessa compreender mais profundamente porquê nem para quê. Ou como dizia o arquitecto da restauração capitalista na China, Teng Siao-ping, gato negro, gato branco, não importa desde que cace ratos, ou seja, capitalismo, socialismo, não importa desde que nos dê crescimento económico e outros resultados. Ou como dizem por aqui, «vejamos qual deles é pastilha elástica e pega».
O pragmatismo é uma filosofia apropriada para a burguesia, e ouvimos os seus representantes a elogiarem algumas pessoas pelo seu «pragmatismo» e a criticarem outros pela sua «falta de pragmatismo». Corresponde ou tem uma base material na natureza do mercado capitalista, no qual reina a anarquia. Os capitalistas, ao levarem as suas mercadorias ao mercado, não podem ter a certeza do que vai acontecer, e mesmo os maiores podem cair na bancarrota. Embora façam alguns estudos de mercado e coisas do género, uma compreensão profunda e científica da essência do capitalismo não é aquilo de que sentem falta para os seus fins: antes necessitam de ver «que funciona», ou seja, o que é que lhes dá lucro. É uma filosofia de curto prazo que, tal como o mercado capitalista, privilegia sobretudo os resultados imediatos: desde que retirem lucros e a economia cresça, não importa que esse crescimento esteja a aquecer a Terra e a conduzir-nos a um desastre planetário.
O pragmatismo não nos leva à verdade. Por exemplo, em meados do século passado foi desenvolvida uma droga chamada talidomida, que «funcionava»: ajudava a harmonizar o sono e a tratar as náuseas em mulheres grávidas e os ensaios clínicos não mostraram nenhuma toxicidade nas pessoas que a tomavam, mesmo em doses elevadas. Funciona! Foi aprovada e vendida a muita gente… e só depois se descobriu a tragédia humana de milhares de bebés que nasceram com deformações. Contentaram-se em ver os resultados imediatos «de sucesso» e não se foi à essência do problema para se poder compreender que drogas que não são tóxicas para os adultos podem provocar deformações nos fetos.
O pragmatismo no movimento comunista, insistimos, é uma fraude cruel, porque atrai e entusiasma as pessoas com resultados imediatos reais ou imaginários supostamente para a sua emancipação e, sem a ciência, tal como aconteceu com a talidomida, só se dá conta dos resultados trágicos posteriormente, quando já é demasiado tarde. Uma vez mais, aí está o exemplo do Vietname (e também de Cuba e da Nicarágua) do que acontece com a linha pragmática de rodear as questões de principio, incluindo a necessidade de distinguir entre o capitalismo e o socialismo, em nome do «avanço prático». e aí está o «êxito» do PCUN(M) de governar o Estado reaccionário na base de ignorar o «ABC do Marxismo» em nome de «tácticas» de sucesso. Em todos estes casos, é uma cruel fraude e uma traição atirar para o lixo a possibilidade de um mundo completamente novo para que pretensos «comunistas» possam fazer parte de esmagar e reprimir as massas através do Estado, e isso é «o máximo» que o pragmatismo pode conseguir.
O pragmatismo e a ausência de princípios característicos deste novo projecto de organização internacional é a continuação do positivismo, do pragmatismo e do empirismo que o Manifesto do PCR,EUA, correctamente analisa como uma outra característica que ambas as tendências erradas do movimento comunista internacional partilham. Tem-se argumentado, por exemplo, que as linhas identificadas con Gonzalo ou Prachanda são «correctas» pelos avanços práticos na altura das guerras populares no Peru e no Nepal, ou que Bob Avakian não pode ter uma posição correcta porque não está a dirigir uma guerra popular. Teríamos então de por de lado o trabalho de Marx, porque também não dirigiu uma guerra popular e teve pouca influência na Comuna de Paris, ainda que tenha retirado lições profundas e científicas dessa experiência e, como vimos, Gonzalo e o PCP, ainda que tenham tido razão nalgumas questões importantes, também propagaram posições profundamente erradas, incluindo no período de avanço da guerra popular nesse país. (E diga-se de passagem, que ainda bem que Avakian e o PCR,EUA, não estão a tentar iniciar a luta armada neste momento em que não há uma situação revolucionária nos Estados Unidos, porque como correctamente insistiu Lenine e como também foi comprovado pelas «acções armadas» de grupúsculos de vários países imperialistas nos anos 60 e 70 do século passado, iniciar a luta armada quando não há uma situação revolucionária só leva ao isolamento e à destruição das forças revolucionárias. A posição do PCR,EUA, que está disponível para quem a queira comentar em vez de inventar argumentos absurdos , é, em termos básicos, a de fazer tudo o que for possível para acelerar e preparar-se para o aparecimento de uma situação revolucionária, que é o que constitui a base material para que então dirijam as massas na luta armada revolucionária até à destruição do antigo estado e o estabelecimento da ditadura do proletariado).
O pragmatismo que identifica «o correcto» directa e intimamente com aparentes êxitos na prática imediata, equivale a uma «vulgarização e degradação da teoria – reduzindo-a apenas a um ‘guia para a prática’ no sentido mais estreito e imediato, tratando a teoria, em essência, como um produto directo da prática específica e tentando estabelecer uma equivalência entre prática avançada (a qual, em si mesma, sobretudo da parte dessas pessoas, envolve um elemento de avaliação subjectivo e arbitrário) e teoria supostamente avançada. Uma perspectiva comunista científica, materialista e dialéctica, leva a uma compreensão de que a prática é o ponto de partida fundamental e de verificação da teoria; mas, em oposição a estas distorções estreitas e empiristas, isto deve ser entendido como significando compreender a prática num sentido lato, abarcando uma vasta experiência social e histórica, e não simplesmente a experiência directa de um individuo, grupo, partido ou nação em particular» .
Uma abordagem empirista imagina que um quadro teórico correcto se pode desenvolver na base de simplesmente se fazer um balanço da experiência da luta de um partido ou país, em vez de se reconhecer a necessidade de fazer o balanço da experiência histórica e internacional – da qual faz parte a experiência de um partido, mas de que é apenas uma parte – bem como de aprender de outros campos: a filosofia, a ciência, a cultura e as artes, etc. Uma abordagem positivista imagina que a prática concreta nos fornece directamente uma teoria correcta, sem reconhecer a necessidade de um salto qualitativo no conhecimento racional com base em abranger e sintetizar, retirar lições, uma vez mais não apenas da prática concreta, imediata, mas compreendendo esta no contexto da sua interpenetração e relação com a vasta experiência histórica e social e a teoria desenvolvida sobre essa base. Uma abordagem empirista  e positivista, é como se nos propuséssemos a construir grandes edifícios na base de simplesmente fazermos o balanço da nossa própria experiência a construí-los, sem termos em conta a experiência mais geral sintetizada nos princípios da engenharia e da arquitectura, o estudo dos solos, terramotos, furacões, etc.
O PC(M)A dá-nos um bom exemplo desta estreita abordagem empirista e positivista ao argumentar, contra o suposto «absolutismo do papel da teoria» do Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista) e do PCR,EUA, que: «Claramente, o ponto mais alto do progresso da revolução comunista no tempo de Marx, a Comuna de Paris, não tinha nenhuma dívida para com o quadro teórico desenvolvido por Marx. De facto, os marxistas não tiveram um papel claro no início e na direcção da Comuna de Paris. Pelo contrário, o progresso teórico de Marx e, em particular, a teoria da ditadura do proletariado, teve uma grande dívida para com a prática revolucionária da Comuna de Paris, e Marx, ao fazer o balanço dessa prática, desenvolveu a Ditadura do Proletariado e construiu-a e estruturou-a dentro do Marxismo» .
Falam como se Marx só tivesse desenvolvido (e só pudesse ter desenvolvido) a teoria da ditadura do proletariado depois de se ter tido a prática da Comuna de Paris, o que é falso. Basta notar que a citação acima reproduzida sobre «a ditadura de classe do proletariado como ponto de transição necessário» para acabar com as «quatro todas» foi retirada de As lutas de classes em França, 1848-1850, publicado em 1850, ou seja, duas décadas antes da Comuna de Paris, o que mostra que, embora Marx tenha retirado novas e importantes lições da Comuna, um método científico, aprender de toda a diversidade da prática social, pode e deve em certo sentido «adiantar-se» à prática revolucionária, e dar forma e guiar a luta por coisas que ainda não foram concretizadas na prática (e se não fosse assim, não poderia haver uma teoria comunista, já que ninguém viveu o futuro comunismo). Marx pode estabelecer correcta e cientificamente a necessidade da ditadura do proletariado antes de essa ditadura existir na prática, precisamente porque não se contentou com um estreito balanço empirista da prática da luta imediata num ou outro país. Chegou a essa compreensão como parte do estabelecimento, pela primeira vez, de um quadro teórico científico para se compreender o desenvolvimento e a transformação revolucionária da sociedade. Desenvolveu isto com base no estudo e numa análise profunda da filosofia, da economia política, da luta de classes e do desenvolvimento social. O argumento do PC(M)A, por seu lado, é a ideia pragmática, empirista e positivista de tratar a teoria «essencialmente como um produto directo da prática específica» e de rejeitar a necessidade de a revolução ser guiada pela teoria científica mais avançada desenvolvida a partir da mais vasta prática social (e não apenas da prática imediata de um dado partido) e do conhecimento humano em diversos campos.
Esse método tem consequencias nefastas. Precisamente uma das razões da rápida derrota da Comuna foi o facto de carecer de uma direcção marxista, tendo-se desenvolvido à margem de um envolvimento com a teoria revolucionária mais avançada da época, e é isto o que o PC(M)A nos aconselha a voltar a fazer, esperando que a prática imediata nos dê as respostas às grandes interrogações colocadas pelo fim de uma etapa e pelo início de outra, com a sua falsa narrativa de como se desenvolveu a teoria da ditadura do proletariado. Não devemos repetir, agora de outra forma, o lado negativo da Comuna que contribuiu para a sua rápida derrota; pelo contrário, devemos lutar por que a teoria científica do comunismo, tal como se desenvolveu até agora com a nova síntese, guie a prática revolucionária e continue a desenvolver-se, e não o pragmatismo e empirismo que eles nos aconselham.

12.    Basearmo-nos na realidade objectiva ou inventarmos uma «realidade» mais ao nosso gosto?

Repetimos várias vezes a frase «êxitos reais ou imaginários» deliberadamente, porque, além do pragmatismo, outra coisa que partilham as tendências que se opõem à nova síntese é o instrumentalismo, que é, além disso, uma herança muito nefasta do movimento comunista internacional do passado. O instrumentalismo é o método de «tornar a realidade num ‘instrumento’ dos nossos objectivos, distorcê-la ao serviço dos nossos fins e da ‘verdade política’» .
Isto é visível nos documentos de 1 de Maio de 2011 e 2012 já citados que nos pintam um belo panorama em que «é cada vez mais claro que a revolução é a tendência principal no mundo» , em que guerras populares avançam em vários países, em que as revoltas nos países árabes «abriram caminho a novas revoluções anti-imperialistas, anti-sionistas, anti-feudais e de nova democracia», constituindo «uma nova frente na batalha entre o imperialismo e os povos. Unem-se às já existentes no Iraque, Afeganistão e Palestina…» «As emocionantes revoltas da juventude proletária (…) comovem as cidades imperialistas…» e outras coisas deste estilo .
O método instrumentalista por trás deste tipo de «análise» é o de realçar e exagerar os aspectos positivos da situação e omitir ou minimizar os aspectos negativos, criando uma pretensa «realidade» de acordo com os desejos e objectivos dos autores, a qual, por sua vez, se espera que possa motivar as pessoas a agirem de acordo com esses desejos e objectivos. Podem ter «êxito» ou não a motivar algumas pessoas com a sua realidade cor de rosa, mas não vão conseguir nenhuma revolução comunista com esse método instrumentalista e subjectivista.
Não nos vamos deter nos pormenores, mas convidamos a leitora ou o leitor a comparar a ideia de que as revoltas árabes «abriram caminho» à revolução de nova democracia com a mensagem de Avakian sobre o Egipto que, ainda que elogiasse os aspectos muito positivos dessa revolta e desse o seu «sentido apoio e ânimo aos milhões de pessoas que se levantaram», também referia a necessidade de uma vanguarda comunista guiada pela teoria mais avançada, sem a qual a perspectiva é de simplesmente substituir um regime por outro e permanecer «no quadro geral do domínio e exploração imperialista global» . Ou comparar a representação unilateral do significado das recentes revoltas nos países imperialistas com o que Avakian escreveu sobre o movimento «ocupar», em que uma vez mais dá as boas-vindas ao aspecto principalmente positivo destas lutas, ao mesmo tempo que critica a ideia de movimento «horizontal» que tem uma forte influência em muitos destes movimentos e que nega a necessidade de uma direcção .
Ao qualificar a situação no Iraque e no Afeganistão como uma «frente na batalha entre o imperialismo e os povos», a abordagem instrumentalista passa por cima do problema de que grande parte das forças no campo de batalha são forças fundamentalistas islâmicas reaccionárias (que incluem por exemplo a Al-Qaeda e os talibãs) que não representam os interesses da luta popular contra o imperialismo. Em vez disso, o que vemos na disputa entre a jihad e a agressão imperialista «são sectores historicamente obsoletos da humanidade colonizada e oprimida contra sectores dominantes historicamente obsoletos do sistema imperialista. Estes dois pólos reaccionários opõem-se, mas, ao mesmo tempo, reforçam-se mutuamente. Apoiar um ou outro desses pólos obsoletos, acabará por fortalecer aos dois» .
O cúmulo do instrumentalismo surge quando nos dizem que «A guerra popular no Peru, iniciada sob a direcção do Partido Comunista do Peru dirigido pelo presidente Gonzalo continua a ser um farol ideológico e estratégico para todo o movimento comunista internacional». Por um lado, combinam dois em um na relação entre teoria e prática: um «farol ideológico» teria necessariamente de ser uma ideologia, e já analisámos alguns dos aspectos em que a ideología do «Pensamento Gonzalo», incluindo antes de Gonzalo ter apelado aos acordos de paz, se desviava da realidade. Por outro lado, ao identificarem a «guerra popular» como um «farol ideológico», evadem o incómodo problema da actual situação no Peru, em que, após a detenção de Gonzalo e do apelo à luta pelos acordos de paz e por uma «retirada estratégica» prolongada, a maior parte das forças revolucionárias estão derrotadas ou desmoralizadas, e os poucos redutos que prosseguem com alguma forma de luta armada estão divididos em facções rivais, algumas das quais também apelam a um acordo de paz. Como já referimos, a linha de denunciar o apelo aos acordos de paz como um simples «embuste», em vez de criticar e refutar o conteúdo da linha revisionista que os propôs, deixou política e ideologicamente desarmados o partido e às massas e contribuiu para este desenlace. Foi precisamente nesse contexto que alguns no MRI avançaram com o argumento instrumentalista de que, independentemente dos factos materiais, a «verdade política» era que Gonzalo não estava por trás do apelo aos acordos de paz. Ou seja, em termos mais francos, deve-se proclamar como «verdade» o que for mais conveniente para os nossos objectivos revolucionários, mesmo que isso não corresponda aos factos materiais.
Não se resolverão os complexos problemas da transição histórico-mundial do sistema capitalista-imperialista mundial para o comunismo mundial inventando e tentando «impor» uma realidade mais ao nosso gosto, mas sim através do nosso esforço para fazermos corresponder as nossas ideias ao contraditório mundo material, percebendo o movimento e o desenvolvimento das profundas contradições sob a superfície dos acontecimentos num dado momento, e percebendo tanto os aspectos favoráveis como os problemas, tanto o que é correcto como os erros, e não evitando nem escondendo os factos desagradáveis dos erros do movimento comunista internacional. Como sublinhou Avakian «A dinâmica de ‘verdades vergonhosas’ em parte pode-nos fazer avançar; pode estimular um fermento que nos estimule a perceber a realidade. Isto é a objectividade científica. Se penetrarmos o suficiente nas contradições que agora surgem, dar-nos-emos conta de que a sua resolução poderá levar a uma nova era, e é bom desencadear uma dinâmica em que nos mostrem as nossa insuficiências. Não digo que deixemos que os erros esmaguem tudo o que estamos a tentar fazer, mas, num sentido estratégico [devemos] estar muito receptivos a isto e não tentar controlá-lo demasiado – queremos isso, esse esticar e esquartejar» .
Segundo o «optimismo oficial» destas abordagens instrumentalistas, qualquer reconhecimento das dificuldades da situação objectiva (por exemplo, falar da derrota do socialismo e das suas causas), é «pessimismo» e «revisionismo». Com este ponto de vista, reconhecer que algo é difícil equivale a pensar que é impossível (como a anteriormente citada confusão do PC(M)A entre o fim de uma etapa na revolução comunista e o fim da revolução comunista). Porque é que o movimento comunista deve fingir que a transformação histórico-mundial – que é urgente, necessária e possível – também é relativamente fácil, que marchamos sempre em frente em linha recta, que a revolução é sempre a tendência principal, que as massas estão sempre prontas e que a única questão é a vontade e determinação dos comunistas? Pelo contrário, esta transformação histórico-mundial «só se pode concretizar a partir das condições materiais concretas e das contradições que as caracterizam, que abrem esta possibilidade, mas que também contêm obstáculos à realização desta transformação social radical; e requer que se compreenda e se trate de forma científica esta dinâmica contraditória – e que seja dirigida por um grupo organizado de pessoas apoiado neste método e abordagem científicos – para levar a cabo a complexa e árdua luta para atingir esta transformação através do avanço rumo ao comunismo em todo o mundo» .

13.    Nacionalismo ou internacionalismo?

No decurso deste texto assinalámos vários aspectos comuns e partilhados entre as tendências dogmáticas e as mais abertamente democrático-burguesas que se opõem à nova síntese: rejeitam a necessidade premente de se analisar cientificamente as experiências do socialismo e da etapa anterior da revolução comunista em geral, passam ao lado de qualquer consideração séria da teoria de Mao sobre a continuação da revolução sob ditadura do proletariado, reduzem o «Maoismo» a uma mera receita para a luta armada, apegam-se a um ou outro modelo do passado e aplicam um método pragmático e instrumentalista.
Um outro denominador comum é o nacionalismo. Como já assinalámos, além do pragmatismo, no passado e agora, o nacionalismo é outra fonte da recusa a aprofundar os problemas da transição socialista para o comunismo, característica destas tendências. Nos países oprimidos em particular, a prática tem mostrado que ainda são possíveis dois tipos de revoluções e movimentos revolucionários na época do imperialismo: revoluções e movimentos revolucionários que não saem do sistema capitalista mundial (revoluciones democrático-burguesas do velho tipo, para usar a expressão de Mao) e a revolução de nova democracia que rompe com o sistema capitalista-imperialista mundial, que leva à transição socialista e faz parte da revolução comunista mundial. Como é sabido, a revolución chinesa foi um exemplo do segundo tipo. Embora muito distintas entre sí, as revoluções no Vietname, Cuba e Nicarágua acabaram por ser revoluções do primeiro tipo, revoluções populares e justas que era necessário apoiar na altura, mas que não saíram do quadro do sistema capitalista-imperialista mundial e que portanto acabaram por não conseguir libertar o país do domínio imperialista, muito menos levar a cabo a transição socialista para o comunismo.
O que marca a diferença entre um tipo e outro, tal como mostram os exemplos citados, não é se as forças dirigentes se dizem comunistas mas sim se efectivamente dirigem esta primeira etapa da revolução como parte subordinada da revolução comunista mundial com vista à abolição das quatro todas em todo o globo terrestre. Uma linha que não distingue entre capitalismo de estado e socialismo, entre revisionismo e comunismo revolucionário, que considera que os problemas da transição para o comunismo podem ser adiados para depois da tomada do poder, acabará num revisionismo que aborta a revolução proletária, como aconteceu no Vietname. Se não se debate a transição histórico-mundial do sistema capitalista-imperialista mundial para o comunismo mundial, não se pode passar de uma posição nacionalista revolucionária limitada ao objectivo de conseguir a libertação do «nosso país» como fim em sí mesmo (que, ironicamente, na época imperialista, nem sequer isso consegue obter).
É este o problema (além do pragmatismo e do instrumentalismo) com toda a algazarra por parte dos organizadores da nova organização internacional sobre a «guerra popular» isolada da discussão dos problemas da transição socialista e como seu substituto. Francamente, como tem sido sobejamente demonstrado por varias forças burguesas e revisionistas, a luta armada isolada e oposta ao objectivo do comunismo não é uma guerra popular e, em última análise, não vai libertar ninguém.
É também este o problema com a formulação do Partido Comunista do Peru e outros de que «O fundamental do Maoismo é o Poder».  É completamente verdade que «excepto o Poder tudo é ilusão» e, tal como diz Avakian, «E correcto querer o poder de estado. É necessário querer o poder de estado. O poder de estado é uma coisa boa —é uma coisa excelente – nas mãos das pessoas certas, da classe certa, ao serviço dos objectivos correctos: eliminar a exploração,  a opressão e a desigualdade social, e de forjar um mundo, um mundo comunista, em que os seres humanos possam desenvolver-se mais e melhor que antes».  Contudo, quando se toma o Poder como o fundamental do «Maoismo» (e ainda mais quando se concebe toda a ciência do comunismo como «principalmente Maoismo», na outra formulação errada do PCP), não só se nega a maior contribuição de Mao, a teoria da continuação da revolução sob ditadura do proletariado, como também leva a colocar o objectivo final da luta como sendo a tomada e o exercício do Poder em vez do comunismo, onde não existirá um Poder de estado, o que reflecte objectivamente, sobretudo nos países oprimidos, um desvio para o nacionalismo revolucionário que vê a necessidade de combater o imperialismo mas não a necessidade de se chegar à abolição das classes.
O PC(M)A acusa a «síntese de Bob Avakian» e o PCR,EUA, de uma «estreita visão nacionalista e de supremacia» por propagar o seu Manifesto, que sintetiza o seu ponto de vista em relação aos fundamentos do comunismo e a nova síntese e analisa a luta entre as duas linhas no movimento comunista internacional, em vez de se limitar a falar do MRI e da sua Declaração numa situação caracterizada pelo mesmo PC(M)A e outros como de «crise e colapso» do MRI, e por não dedicar mais páginas ao MRI no Manifesto.  A «estreita visão nacionalista» corresponde, pelo contrário, aos que, face a uma proposta sobre como fazer avançar mais e melhor a revolução comunista apresentada para comentário e debate, não respondem ao seu conteúdo e antes acham que o próprio acto de se fazer uma proposta e de a apresentar a debate é um acto de «supremacia», de hegemonismo, de «total desprezo (…) da existência e do esforço do MRI», etc. Se me fazes uma proposta, estás a exercer «supremacia» sobre mim e a mostrar «total desprezo» por mim! Que internacionalismo é este? Onde está a preocupação com a emancipação da humanidade? Se queremos a emancipação da humanidade e se compreendemos que isso requer conhecer o mundo tal como ele realmente é, qualquer proposta séria é de grande interesse. Se estamos apegados ao passado, ao dogmatismo e ao nacionalismo, achamos que o mero acto de se fazer uma proposta que contradiz esse dogma é um acto de «supremacia».
Longe de uma «estreita visão nacionalista», a nova síntese do camarada Avakian aprofundou ainda mais a base material e filosófica do internacionalismo ao analisar «porque é que, num sentido último e global, a arena mundial é tão decisiva, mesmo em termos da revolução em qualquer país específico, em especial nesta época do imperialismo capitalista como sistema mundial de exploração, e de como esse conhecimento deve ser incorporado na abordagem à revolução, tanto em países específicos como à escala mundial»,  ao criticar os desvios nacionalistas por subordinarem a revolução mundial à defesa do país socialista e ao insistir em que o internacionalismo não é algo que o proletariado de um país estenda a outro mas sim parte, nas palavras de Lenine, «da minha contribuição na preparação, na propaganda e na aceleração da revolução proletária internacional».
Em que consiste o internacionalismo e em que consiste o nacionalismo? Em dedicar recursos e esforços que muita falta lhe faziam, tal como fez o PCR,EUA, para promover a criação e o desenvolvimento do MRI ou em manter-se à margem para depois lançar acusações de «hegemonismo»? Em promover a campanha «Mover o céu e a terra para defender a vida do Presidente Gonzalo»,, após a detenção dele, e face à proposta de «acordos de paz», um ano depois, lutar por cumprir com o dever internacionalista do MRI de analisar a situação e a luta entre as duas linhas para chegar a conclusões científicas, ou em insistir que essa análise era um assunto apenas das pessoas no Peru e/ou apegar-se à «verdade política» de que Gonzalo não tinha nada a ver com a linha oportunista expressa em Asumir e noutros documentos, apesar das crescentes provas em contrario? Em desenvolver uma crítica comunista da linha oportunista no Peru ou seguir atrás da posição simplista de a denunciar como «embuste» e limitar a crítica a epítetos como «vómito negro», o que retirou ao PCP e às massas uma análise científica dessa difícil situação e de como a enfrentar? Em criticar na base de princípios e de uma argumentação racional a reviravolta revisionista da linha do Partido Comunista do Nepal (Maoista) desde o principio da sua adopção ou em não assumir uma clara posição de principio a esse respeito? Em insistir no debate para se chegar a uma análise científica das lições das importantes experiências da guerra popular no Peru e no Nepal ou em passar de promover uma ou outra luta segundo cálculos estreitos dos benefícios de prestigio e «força material» sem nunca se analisar nada cientificamente? Por fim, é uma demonstração da firme orientação internacionalista de Avakian o facto de não só ter reconhecido a necessidade de desenvolver mais a teoria comunista a fim de fazer avançar a revolução comunista nesta nova etapa, não só ter apelado repetidamente a que outros contribuíssem para esse mesmo esforço, como não vacilou nem sacrificou estas necessidades da luta pela emancipação, sobrepondo estreitos interesses de grupo para manter «boas relações» no MRI, quando outros se dedicaram a atacá-lo desapiedadamente e pessoalmente e a deixar claro que não iam tolerar sequer que estas questões fossem debatidas.

Camaradas,

Estamos imersos numa luta entre as duas linhas no movimento comunista internacional sobre o caminho rumo à revolução comunista mundial e à emancipação da humanidade. O PCR,EUA, foi bastante franco a descrever, no seu Manifesto, a profunda luta nas suas próprias fileiras contra o revisionismo. Na Organização Comunista Revolucionária, México, tal como já foi mencionado, também temos atravessado uma aguda luta, sobretudo com as tendências dogmáticas de apego religioso à experiência, à teoria e aos métodos do movimento comunista do século passado, aos quais se opõem ao reconhecimento das novas e profundas contribuições da nova síntese de Bob Avakian. Tal como outros apoiantes da nova síntese no movimento comunista internacional, continuamos a dar as boas-vindas a todas as críticas argumentadas, continuamos a debater a nova síntese e vemos claramente que há muito a fazer. Fazem falta as contribuições de muitos mais para que se desenvolva a teoria e a prática do comunismo, o que se torna necessário para se poder dirigir correctamente a nova etapa da revolução comunista mundial.
A unidade sem princípios com as posições dogmáticas e com as posições mais abertamente democrático-burguesas que aqui temos vindo a esboçar só pode levar a que se fique como resíduo do passado ou pior, a uma punhalada nas costas das massas que precisam urgentemente da revolução comunista para se libertarem deste sistema de horrores. O caminho para essa emancipação requer uma ruptura com essas tendências erradas na nossa própria forma de pensar e no movimento comunista em geral, requer que se leve a luta entre as duas linhas até ao fim, empenhando-nos de uma forma séria e crítica na nova síntese do comunismo e na sua aplicação à prática revolucionária em todo o lado, e construir sobre essa base a vanguarda do futuro, em cada país e a nível mundial, à altura dos desafios da nova etapa da revolução comunista e da possibilidade e da necessidade de se conseguirem novos e históricos progressos na luta pelo comunismo mundial e pela emancipação da humanidade.

– Maio de 2012

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